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		<title>Pelo direito ao corpo</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Apr 2012 02:03:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Cordilheira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Natasha Ísis . Ser feminista, antes de tudo, é um ato de coragem. Não se trata apenas de uma constatação pessoal: tal ideia corresponde a uma realidade que pode ser observada em assustadoras notícias de jornal por toda parte. Dentre todas as dificuldades que uma mulher precisa enfrentar a partir do momento em que&#160;&#8230; <a href="http://revistacordilheira.com/2012/04/05/pelo-direito-ao-corpo/">Ler&#160;mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=345&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>por Natasha Ísis</em></p>
<p style="text-align:right;">.</p>
<p style="text-align:justify;">Ser feminista, antes de tudo, é um ato de coragem.</p>
<p style="text-align:justify;">Não se trata apenas de uma constatação pessoal: tal ideia corresponde a uma realidade que pode ser observada em assustadoras notícias de jornal por toda parte. Dentre todas as dificuldades que uma mulher precisa enfrentar a partir do momento em que toma a luta feminista como parte de si, a mais difícil talvez seja a questão de defender o seu ideal todos os dias, enfrentando os argumentos que desejam esvaziar o feminismo em defesa de uma suposta moral superior vigente – o chamado bom senso, desculpa para muitas barbaridades.</p>
<p style="text-align:justify;">Nessa linha, o que parece ganhar cada vez mais espaço com a onda conservadora que deseja afogar as bandeiras da luta feminista é a questão da relação da mulher com o seu corpo. Para muitos é difícil aceitar tal fato, mas a mulher, em sua condição de ser humano, tem poder sobre o seu corpo e autonomia para decidir o que deseja fazer com ele. Regras da terrível “moral e bons costumes” não são justificativas para banalizar a liberdade que um homem tem sobre o seu corpo e as suas vontades. Então por que uma mulher deve levar em consideração possíveis julgamentos exteriores na hora de beijar ou transar com alguém?</p>
<p style="text-align:justify;">Essa diferença de tratamento está confortavelmente instalada nos pensamentos de mães, pais, namorados, professores e amigos que, aliás, não se consideram nem um pouco machistas. São comentários supostamente normais como “Olha o comprimento dessa saia” ou “Essa menina fica com todo mundo” que reforçam a atribuição diferenciada de valores para homens e mulheres. A imagem feminina se torna reduzida a algo imutável: ser mulher é ser meiga, adorável, pura e maternal. O machismo que empurra as mulheres a seguir esse padrão para serem classificadas como “boas” se justifica pela moral nociva e repressora em que se insere, tomando ares de conduta paternalista em relação a todas as mulheres do mundo por, é claro, saber o que é melhor para elas.</p>
<p style="text-align:justify;">Igualmente contraditória é a posição desse pensamento no que diz respeito às mulheres que já se libertaram das amarras que tentaram lhes colocar. Tomando para si a liberdade de conduzir sua vida da maneira que quiser, a mulher que se descobre plenamente capaz de usar seu corpo de acordo com as suas ânsias se vê em eterno perigo – dentro da lógica confusa que rege as discussões atuais, uma mulher que diz sim a diversas experiências amorosas e/ou sexuais não pode dizer não para muita coisa. Não pode MESMO.</p>
<p style="text-align:justify;">De exemplos recentes estamos, infelizmente, bem servidos. Na última edição do programa Big Brother Brasil, um caso chamou atenção pelo julgamento enlouquecido de um público assustadoramente conservador. Se trata do suposto estupro da participante Monique. Monique, que falava abertamente e sem acanhamento sobre sexo, mostrou desde o início do programa que gostava de beber e usar roupas curtas. Na primeira festa do BBB, a participante bebeu demais e trocou uns beijos com outro participante, Daniel. Mais tarde, no pay-per-view da emissora, os espectadores puderam ver o casal deitado junto e trocando carícias. Acontece que, em determinado momento, Monique estava claramente dormindo e o outro participante parecia abusar dela durante o sono.</p>
<p style="text-align:justify;">Na minha opinião, o mais assustador desse episódio foi a reação do público. Claro que o fato de um homem se achar no direito de abusar de uma mulher enquanto a mesma está inconsciente é desprezível, mas pior que isso é a sociedade não achar isso um absurdo. Foram inúmeros comentários dizendo como Monique, por ”ser uma piranha e estar bêbada”, não podia reclamar de nada. Se ela teve liberdade suficiente para se embriagar e ficar com o cara, ele podia fazer o que quiser com o corpo dela, não é mesmo? Mesmo contra a sua vontade, mesmo desacordada.</p>
<p style="text-align:justify;">Monique não tinha mais direito ao seu corpo. Na verdade, de acordo com os conceitos conservadores sobre os quais se estrutura essa sociedade patriarcal e machista, as mulheres jamais podem ter o direito de viver plenamente as suas vontades. E não é preciso olhar para um exemplo extremo como esse para observar tal situação. Basta andar na rua de roupa de ginástica e ouvir as brincadeirinhas que os motoristas se sentem confortáveis para fazer com quem der na telha.</p>
<p style="text-align:justify;">Todos os dias as mulheres sentem na pele como é ser reduzida ao corpo que têm, como é ser julgada pelo que fazem com ele pelo simples fato de ser mulher. O machismo é o tipo de discriminação mais antigo, mais socialmente aceito e mais profundamente enraizado que existe. São pequenos atos, pequenas frases de repressão, detalhes que passam despercebidos até por quem os pratica que levam aos grandes crimes contra a mulher. Fazer vista grossa para os pequenos indícios de machismo só permite uma redução mais discreta e progressiva da figura feminina frente ao homem. Rir das cantadas na rua não é ter senso de humor, é concordar com o estado das coisas – é deixar espaço para que ações grotescas aconteçam.</p>
<p style="text-align:justify;">Por isso, volto ao que disse de início. Ser feminista é um ato de coragem. Coragem para ouvir os maiores absurdos possíveis sobre a sua pessoa por estar defendendo a sua liberdade como mulher. Para bater o pé quando te chamam de mal humorada. Para enfrentar quem não te trata com respeito. Para dizer não.</p>
<p style="text-align:right;">.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Natasha Ísis é estudante de Jornalismo na ECO-UFRJ.</em></p>
<p style="text-align:right;"><em>E-mail: natashaisis@yahoo.com.br</em></p>
<br />  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=345&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Por que ser feminista hoje?</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2012 21:02:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Cordilheira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Taís Bravo . &#8220;A figura da mulher que emerge dessas bonitas revistas é frívola, jovem, quase infantil; fofa e feminina; passiva, satisfeita num universo constituído de quarto, cozinha, sexo e bebês. A revista não deixaria, com certeza, de falar em sexo, a única paixão, o único objetivo que permite à mulher em busca do&#160;&#8230; <a href="http://revistacordilheira.com/2012/04/01/por-que-ser-feminista-hoje/">Ler&#160;mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=339&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div id="yui_3_2_0_1_1333311402409112">
<p style="text-align:right;"><em>por Taís Bravo</em></p>
<p style="text-align:right;">.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>&#8220;A figura da mulher que emerge dessas bonitas revistas é frívola, jovem, quase infantil; fofa e feminina; passiva, satisfeita num universo constituído de quarto, cozinha, sexo e bebês. A revista não deixaria, com certeza, de falar em sexo, a única paixão, o único objetivo que permite à mulher em busca do homem. Está atulhada de receitas culinárias, modas, cosméticos, móveis e corpos de mulheres jovens, mas onde estaria o mundo do pensamento e das idéias, a vida da mente e do espírito? Na imagem da revista as mulheres só trabalham em casa e no sentido de manter o corpo belo para conquistar e conservar o homem&#8221;.</em></p>
<p style="text-align:justify;">O seguinte parágrafo foi escrito em 1963 por Betty Friedan no seu clássico &#8220;Mística Feminina&#8221;. Quase quarenta anos depois e as revistas femininas ainda existem neste mesmo modelo, com a diferença de agora possuírem pequenas seções voltadas para finanças &#8211; não com reportagens densas e sobre economia, mas principalmente dando conselhos e dicas de como investir na carreira e administrar o dinheiro. Interesses pessoais para um mundo guiado por desejos, é isso o que a mídia expõe e incita.</p>
<p style="text-align:justify;">A mulher conquistou uma série de direitos sociais, mas sua suposta independência não assegura sua liberdade. A imagem da mulher, assim como a do homem, ainda é influenciada diretamente pela mídia, que ao criar identidades femininas estimula o crescimento econômico de uma série de novos empreendimentos. O tempo é do neoliberalismo e as armadilhas nunca foram tão sagazes. É fácil se acreditar livre quando se tem poder de compra, o mundo é múltiplo e tolerante para com os consumidores.</p>
<p style="text-align:justify;">É assim que o feminismo, como tantas outras lutas, torna-se aos poucos batido. Se historicamente o feminismo nunca foi bem visto, hoje ele parece um cacoete de loucas recalcadas. Para que ser feminista hoje? A mulher estuda, trabalha, dirige, pagas suas contas, é independente, inteligente, transa com quem quer (com moderação porque ninguém quer ser piranha), faz pilates, come yogo-alguma coisa (sem gordura), paga sua depilação (para não ser a nojenta cabeluda) com seu próprio dinheiro e tem até filhos sem precisar de um homem. A mulher é enfim livre. E dizem alguns que elas vão conquistar o mundo – se você diz isso, essa é minha deixa para refletir sobre as asneiras que diz, ok?. A mulher hoje é o que ela quer, desde que seu desejo acompanhe as possibilidades de identidade que o consumo apresenta.</p>
<p style="text-align:justify;">A mídia e o mercado trabalham com os desejos, assim constroem imagens, normas e expectativas. Ainda hoje a mulher é estimulada a construir sua identidade como a de um ser que deve servir às normas de um outro. A tarefa da mulher contemporânea é preservar sua feminilidade (cuidar de sua casa, seu homem, seus filhos e de sua beleza) depois de inserida no mercado de trabalho. Quem decide cumprir essa missão tem pouco tempo e pouca liberdade para se perguntar quem quer ser e se isto realmente a faz feliz. Apenas segue cegamente as expectativas que lhe rondaram por toda vida. Isso, é claro, também se dá com os homens, faz parte do mundo de exigências e papéis estabelecidos. No entanto, historicamente o abuso e a falta de voz é mais expressivo quando se trata das mulheres. É evidente que essas expectativas inevitavelmente provocam insatisfações (já que para a maioria é impossível atingir o nível da imagem) o que pode estimular o consumo, caso se acredite nos milagres que eles prometem. Tal situação também pode incitar um desejo de mudança. Sendo assim, para que a insatisfação ganhe teor crítico e a transformação se torne uma possibilidade, é necessário encontrar brechas e esse é o espaço da resistência, do feminismo.</p>
<p style="text-align:justify;">O feminismo é uma luta pela liberdade das pessoas, para que todos, de todas as classes e gêneros, possam ser o que quiserem e sem que precisem sofrer caso seus desejos sejam diferentes do padrão esperado. Portanto, a questão do feminismo é também a da felicidade. E é o bem-estar que está em jogo quando milhões de mulheres sofrem cotidianamente a pressão para estarem magras, depiladas, lindas, além de ter sucesso profissional e familiar. Óbvio que há sofrimentos imensamente piores, mas aqui pretendo dialogar com quem, por não ser atingido violentamente pelo sexismo, acredita ser livre e sem riscos. Em outras palavras, os leitores que procuro atingir são jovens mulheres privilegiadas que pelo seu poder de consumo: mulheres que desfrutam de alguma “liberdade” e seguem conquistando o futuro sem se perguntarem se estão construindo uma história ou dando corda numa existência programada desde o berço, bonecas substituíveis, mas necessárias na esteira do capital. A todos que não possuem compaixão e ignoram que o sexismo mata, fere e violenta homens e mulheres. Aos homens que, ainda presos em um clichê anos 50, repelem imediatamente qualquer fala associada ao feminismo. A todos que não se olham e criticam e percebem que fazem parte do mesmo problema.</p>
<p style="text-align:justify;">Há tantas mulheres e homens em posições aparentemente confortáveis (e que de fato estão, em um sentido materialista, comparado à realidade social de nosso país) e incapazes de enxergar que também fazem parte do problema, que contribuem para que um tipo de violência predomine. Além da compaixão, além da empatia com a dor do outro, há a capacidade de refletir criticamente sobre a própria vida e ser capaz de escolher e não seguir obstinadamente a vida que te induzem. Escolher é mais difícil que só reproduzir o catálogo de desejos que o capital nos oferta, no entanto é só a partir deste ato de criação que o homem conduz o seu ser a uma possibilidade de felicidade ativa. A classe média é certamente feliz e contorna seu mal-estar com as ilusões disponíveis no neoliberalismo. A liberdade é uma questão existencial para a Classe Média e, em geral, a existência acontece e se dá com o que se tem à mão, pelo ritmo desesperado, pelas falsas necessidades, por hábito; não há pausa para a crítica. Mas a liberdade é uma necessidade para quem é explorado no sertão, nas favelas, sinais, para as mulheres que são estupradas e as que morrem só por dizerem não. A liberdade é um martírio cotidiano para muitos e uma escolha esquecida para quem toma o que lhe dão sem olhar para os lados.</p>
<p id="yui_3_2_0_1_1333311402409109" style="text-align:justify;">Não é possível se ater ao feminismo, porque os preconceitos e intolerâncias são mantidos por interesses políticos e econômicos. O Capitalismo irá afrouxar seu cerco o máximo possível para evitar insatisfações de seus consumidores, o que, obviamente, não implica em dar-lhes liberdade. É assim que a mulher passa a ter direitos, mas mantém a sua imagem completamente vinculada a um ser agradável e belo que deve nortear sua existência a fim de agradar ao homem e não violar as normas de conduta sociais (que hoje são mais frouxas e hipócritas, por exemplo, a mulher que bebe não é mais mal vista, mas caso esteja bêbada e algo de ruim lhe aconteça será imediatamente sua culpa). Esse movimento de conservar o que é uma violência ao humano se dá com respaldo daqueles desnutridos de compaixão &#8211; não no sentido católico, é bom esclarecer. É, portanto, uma questão política e humana. Dar reflexão e voz às insatisfações pessoais é também uma ação política. Foi assim que o feminismo emergiu nos anos 50, através das insatisfações pessoais de mulheres que ao expressarem suas frustrações foram capazes de se unirem e lutar por mudanças que influenciaram a vida de muitas outras mulheres&#8230; Inclusive esta que escreve este texto nos anos 10.</p>
</div>
<div id="yui_3_2_0_1_1333311402409112">O Ser humano é da ordem da escolha. Nada está dado, quem somos, porque somos e como devemos ser. Para mim, ser feminista e de esquerda estão intensamente ligados a essas questões e a uma luta para que essas questões permanecem em aberto para todos e não sigam definidas por ordens econômicas, restringindo o poder de escolha que nos é essencial. Lutar pela liberdade humana é lutar contra o capitalismo e o sexismo, e tal luta é motivada por anseios pessoais. Esta é uma revista que te pergunta, leitor: O que você quer?</div>
<div></div>
<div style="text-align:right;">.</div>
<div style="text-align:right;">
<p><em>Taís Bravo é estudante de Filosofia na UFF.</em></p>
<p><em></em><em>Blog:www.dicionariodegestoseanseios.wordpress.com/ Email: <a href="mailto:taisbravo@gmail.com">taisbravo@gmail.com</a></em></p>
</div>
<br />  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=339&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>A serpente está na terra e o programa está no ar</title>
		<link>http://revistacordilheira.com/2012/03/31/a-serpente-esta-na-terra-e-o-programa-esta-no-ar/</link>
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		<pubDate>Sat, 31 Mar 2012 14:11:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Cordilheira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Anita Lucchesi . As águas de março já encerraram o verão e este mês maravilhoso está chegando ao fim. Mês das mulheres, dizem. Mês de mulheres absolutamente fantásticas, eu penso. Mês em que comemoramos a força de Iemanjá, mês que comemoro o nascimento de minha mãe, o dia que conheci o amor da minha&#160;&#8230; <a href="http://revistacordilheira.com/2012/03/31/a-serpente-esta-na-terra-e-o-programa-esta-no-ar/">Ler&#160;mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=335&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>Por Anita Lucchesi</em></p>
<p style="text-align:right;">.</p>
<p style="text-align:justify;">As águas de março já encerraram o verão e este mês maravilhoso está chegando ao fim. Mês das mulheres, dizem. Mês de mulheres absolutamente fantásticas, eu penso. Mês em que comemoramos a força de Iemanjá, mês que comemoro o nascimento de minha mãe, o dia que conheci o amor da minha vida. Mês de lutas para nós mulheres que tivemos a triste alegria de receber rosas no dia 08 de março.</p>
<p style="text-align:justify;">Muita gente escreveu com propriedade sobre o Feminismo nestes dias de março. E é aliviante perceber que gente como a blogueira Lola Aronovich e o pessoal do Blogueiras Feministas não acham que tudo é festa em março porque quando a gente sai do mercado carregando várias sacolas pesadas algum “cavalheiro” nos diz Feliz Dia da Mulher!, com aquele sorriso de canto de boca e depois, olhando de soslaio, com um balãozinho suspenso: “Vai lá, mulher, mostra tua força agora e carrega essas compras sozinha porque <em>hoje</em> é teu dia!”. É com satisfação que notamos o ciberativismo feminista ganhar militantes na Web.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu também gostaria de falar aqui de algumas mulheres maravilhosas. Simone, Rosa, Conceição, Chimamanda, bell. E gostaria de sempre poder chamá-las assim pelo primeiro nome, nesta licença poética que nos torna mais íntimas e cúmplices. Falar da nossa luta que é histórica e legítima. Mesmo hoje? Sim, sobretudo hoje. Hoje é o tempo em que muitos acreditam na mentira de que a mulher <em>está</em> emancipada, enquanto o que acontece é uma brutal conversão das antigas reivindicações em exigências do <em>novo espírito do capitalismo (Boltansky e Chiapello, 2009)</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Contudo, meu foco neste artigo não será diretamente o feminismo. Sem dúvidas, esta é uma das causas que me traz aqui. Mas meu intento hoje é outro. Tem me perturbado muito a proliferação de páginas de ódio na Internet. São blogs, fóruns e diversos perfis em redes sociais preocupados, ao menos aparentemente, com o fim único e exclusivo de <em>trollar</em> e aterrorizar seus objetos de ódio. Entendo por ódio, neste contexto, algumas aversões sociais crônicas, radicais e irracionais de determinados grupos em relação a outros, minorias ou não. E é empunhando a bandeira de luta contra todos estes ódios manifestos Web afora &#8211; xenofobia, racismo, misoginia, machismo, homofobia – que cá viemos fazer algumas ponderações não sobre o Feminismo 2.0, mas seu antagonista direto na Internet.</p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><strong>A quebrada da ressaca conservadora na Web</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong></strong>A rede mundial de computadores já é quarentona, mas as tecnologias de informação e comunicação do século XXI e o advento da Web 2.0 são relativamente jovens. Ainda ficamos estupefatos diante de certas invenções. E quem diria que já nos anos 2000 seria possível fazer videoconferências com pessoas das mais variadas região do nosso Globo? Vivemos há pouco a primeira Copa do Mundo tuitada. Vai dizer que não foi diferente? Afinal, poder trocar a voz e os comentários de um Galvão Bueno por breves<em> updates</em> de 140 caracteres não é qualquer coisa. Hoje podemos assistir praticamente ao vivo a qualquer evento do mundo sem necessitar da intervenção de uma emissora de TV. Colecionamos nossas memórias na rede, <em>timelines</em> acima, <em>timelines</em> abaixo. Criamos nossas próprias rádios online, somos livres (?) para escolhermos a informação que vamos consumir na Internet. Já existem aparelhos GPS’s tão acessíveis que somados ao Google Maps já podemos abrir das velhas Listas Amarelas e dos mapinhas amassáveis, digo, dobráveis, de papel.</p>
<p style="text-align:justify;">A Internet anunciou grandes mudanças. A Web 2.0 veio e fez. Difícil encontrar hoje atividades cotidianas nos grandes centros urbanos que não envolvam etapas online. Ontem mesmo coloquei aquele extrato bancário para chegar apenas por e-mail. <em>O meio ambiente curtiu isso</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">O mundo, isso e aquilo a um click! – exploram as propagandas. Até o Trailler do Chico de Botafogo está no Facebook! Acontece que essa praticidade, agilidade, economia e anomia que a Internet possibilita às comunicações fizeram dela uma atraente aliada de grupos nada bacanas. Grupos de Extrema-Direita se apropriaram da Internet para promover seus projetos de Intolerância (MAYNARD, 2010).</p>
<p style="text-align:justify;">Em novembro de 2010 um perfil do Twitter (@HomofobiaSIM) cujo nome era “Pela moral e pela família” tinha escrito na sua <em>bio</em> “A maioria dos homossexuais pouco ou nada acrescenta para a sociedade. São eles os responsáveis pela propagação das DSTs no mundo.”. O perfil reuniu em aproximadamente 15 horas mais de 15 mil seguidores. Em reação ao destaque da hashtag #HomofobiaNAO no Twitter, em rechaço à episódios de violência contra gays ocorridos naquele mesmo mês no Rio de Janeiro e em São Paulo, um tuiteiro ou tuiteira resolveu se esconder atrás do anonimato para postar no microblog suas mensagens de ódio e incitar a violência contra homossexuais. Um de seus polêmicos tuites dizia “Um viadinho brasileiro foi espancado, ai que esta o erro, ele deveria ter sido é morto, acabe com AIDS, mate um gay.”. E esta mensagem retuitada por 32 pessoas.</p>
<p style="text-align:justify;">Em dezembro de 2011, outro Twitter, desta vez da arroba KarineMelS2 disparava seus preconceitos: “Negro racista = #discriminacaopositiva Branco indignado = #racismo Aborto de brancas = #direito Aborto de negras = #fascismo”, e ainda “Tudo q estou falando desses negros, nordestinos, cotistas, macacos é a realidade, estou ganhando muitos fãs e seguidores e isso é um #Fato”. O perfil não poupa caracteres: É o que eu digo, a nordestina é uma mulher vulgar, é um povo sem cultura. Eles não fazem amor, se reproduzem como animais&#8230;”. Quantos preconceitos podemos extrair dessas pílulas de ódio? Aliás, me pergunto como pode alguém ser capaz de concentrar tanta ira em tão poucas palavras. Será que conseguimos dimensionar o alcance de ideias como essa na sociedade? Como essa atitude, a princípio, fechada no ambiente virtual, se desdobra no dia-a-dia das pessoas que acreditam nisso?</p>
<p style="text-align:justify;">Cerca de 10 horas atrás o perfil @HomemSancto do Ministro Claudio no tuiter retuitava um posto de outra arroba de Extrema-Direita, o @VerBolsonaro. Conteúdo do post: “Recortes d jornais comprovam q o povo pedia intervenção dos militares em 64” mais um link para postagem do dia no blog da família Bolsonaro que bem à véspera do aniversário do Golpe de 1964 anuncia em letras garrafais: “OBRIGADO FORÇAS ARMADAS, POR GARANTIR QUE HOJE NÃO VIVAMOS EM UMA DITADURA COMO A DE CUBA.”. Poderíamos entrar nos pormenores da apropriação simbólica que a postagem deste blog (que claramente faz campanha para o deputado federal Jair Bolsonaro, do PP-RJ) faz da memória do Golpe, mas fugiríamos demais às margens que delimitamos para este artigo. Contudo, cabe a destacar, como advertiu Maynard, que neste contexto que viemos descrevendo afloraram “múltiplas memórias e tentativas de reescritas da história. Entre tais projetos de reconstrução historiográfica está o uso feito da rede mundial de computadores por grupos de extrema-direita” (2011, p. 44). Maynard nos fala de espaços voltados a “estabelecer como falsificações, delírios ou construções as memórias sobre as experiências do holocausto na II Guerra Mundial” (2011, p.45), ou do Golpe Militar, das torturas da Di-ta-du-ra, ao gosto do freguês, né, Sr. Bolsonaro?</p>
<p style="text-align:justify;">Até aqui, apresentamos apenas alguns mínimos exemplos de manifestações preconceituosas e ideologicamente carregadas de um discurso conservador, eu arriscaria dizer fascista, sem exagero. Discurso de apologia à violência e mensagens de doutrinação à intolerância, como aquelas que vimos desprezando os negros e os nordestinos. Mensagens pra eugenista nenhum botar defeito.</p>
<p style="text-align:justify;">Agora terei o desprazer de lhes apresentar, enfim, o caso que me fez decidir por este tema para este artigo. Trata-se do grupo de <em>masculinistas</em> reunidos ao redor do perverso blog siolviokoerich.com e suas mensagens machistas, e não só. Cabe um esclarecimento, o nome “Sílvio Koerich” foi apropriado indevidamente pelos autores do blog em represália a uma terceira pessoa que rejeitou as declarações preconceituosas, homofóbicas e intolerantes postadas em um fórum de debates feminista na internet.</p>
<p style="text-align:justify;">A linha de descrição do blog vai direto ao ponto “Blog para chutar a cara das feministas, meter a real no mangina e massacrar toda a escória esquerdista e politicamente correta. Eu sou o perdedor mais foda do mundo”. O espaço, aparentemente mantido por mais de uma pessoa, reúne um sem fim de posts escabrosos pregando estupro corretivo contra lésbicas, <em>denunciando</em> que as ‘vadias” querem roubar os postos de trabalho dos homens, incitando violência contra animais e pedofilia. Tudo justificado na lógica <em>sancto masculinista</em> de desprezo às mulheres, às Humanidades e aos negros de modo geral. Os sanctos se identificam pela sua misoginia. Sancto que é sancto é solteiro, branco e hétero. Chutaria que esses caras também são ricos ou, pelo menos, têm uma condição “remediada”, mas não tenho esses dados. Contudo, a intuição e alguns traços colhidos em posts aqui e ali me fazem pensar que estes sujeitos são também gente “da elite”, apesar de se reivindicarem prejudicados pelas “vacas”emancipadas que invadiram o mercado de trabalho.</p>
<p style="text-align:justify;">Acontece que dois dos responsáveis pela <em>hate page</em> foram presos neste grande mês de março, numa pacata quinta-feira (22). A prisão foi fruto da Operação Intolerância da Polícia Federal, que até o dia 14 deste mês tinham recebido  69.729 denúncias a respeito do conteúdo criminoso do site. Segundo a PF, Os presos responderão pelos crimes de incitação/indução à discriminação ou preconceito de raça, por meio de recursos de comunicação social (Lei 7716/89); incitação à prática de crime (art. 286 do Código Penal) e publicação de fotografia com cena pornográfica envolvendo criança ou adolescente (Lei 8069/90-ECA).</p>
<p style="text-align:justify;">Esta prisão, sem dúvidas, representa uma vitória daqueles que vigiaram, denunciaram, debateram e lutaram com todas as armas que tinham para tirar esta página do ar. Certamente, é fruto também de uma ação policial bem sucedida e de uma determinação judicial. Foi uma conquista, contudo, por tudo o que dissemos acima, o Brasil ainda precisa se preparar muito para encarar os crimes digitais.</p>
<p style="text-align:justify;">No dia da prisão de um visitante do blog cujo nickname é &#8220;MacacoBranco&#8221; atacou: &#8220;Aahhhhahaaa foi preso otário. Quero ver postar essa mistura horrenda de cristianismo, ultra-direita e machismo. Bicha recalcada!&#8221; Provocação a que outro usuário identificado pela alcunha &#8220;Filho de Adolf Hitler&#8221;, respondeu, apenas seis minutos depois: &#8220;Lembre-se que um homem honrado sem perspectivas de futuro fica altamente motivado a fazer um ataque suicida. O nobre Wellington perdeu sua motivação, estava muito danificado e resolveu colocar um fim levando as putinhas com ele.&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;">Uma rebatida talmente veloz à espetada do &#8220;MacacoBranco&#8221; sugerirá que o blog tem outros membros masculinistas além dos que foram presos Emerson Eduardo Rodrigues e Marcelo Valle Silveira Mello, presos horas atrás desta troca de mensagens? Fica a pergunta e um alerta às autoridades, embora o site não esteja mais no ar, ainda tem muitos mascus soltos afim de encrenca por aí.</p>
<p style="text-align:justify;">O triste é que esse blog não era perigoso apenas pelos seus posts. Bastava uma olhada nas discussões geradas nos comentários para perceber o naipe dos seus apreciadores. Em um dos comentários do post &#8220;Está na hora de começar a agir, deixar o ódio fluir&#8221; (12/03/2012), um usuário identificado pelos <em>números da besta</em> 14-88, diz:</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Eu quero usar o meu direito a liberdade de expressão que é garantido pela constituição federal em seu artigo 5. Eu quero andar na rua com uma camiseta que expresse a minha opinião. Eu quero uma camiseta escrito ‘Tenho nojo de viado’ isso não é homofobia, isso é meu sentimento que deve ser respeitado. Eu quero uma camiseta escrito ‘Não gosto de preta’ para evitar ser abordado por negras miscigenadoras. Aonde está a liberdade? Liberdade abra as asas sobre nós.&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">Na mesma discussão, outro leitor do blog identificado como Reihardt Heydrich &#8211; O capitão do Reich, acrescenta:</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Não temos ódio de mulheres, temos ódio de comportamentos repulsivos, temos ódio do cárater sórdido, frívolo, leviano e psicopata das merdalheres feministas (todas se tornaram) a verdadeira mulher é leal, submissa e FEMININA e não FEMINISTA.<br />
FEMINISTAS são travestis de mulher, são na verdade seres abjetos, como temos repulsa ao homossexualismo e merdalheres assim se assemelham à TRAVESTIS REPULSIVOS, nós atacamos mesmo. Se a carapuça te serve, o problema é seu e não meu!<br />
E tem mais, merdalheres miscigenadas, pardas e pretas afins não são mulheres, são bichos.&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;">Submissa e feminina. A dócil fêmea do mundo cor de rosa em que querem nos enfiar desde crianças. A mulher <em>serve </em>apenas para decoração e reprodução. Isto se a mulher for branca. Lendo isso tudo, conseguimos guardar ainda alguma identificação com as festividades de 08 de março? Com as dezenas de e-mails vendendo seus megadescontos para eletrodomésticos, cupons promocionais para salão de beleza e clínicas de estética?</p>
<p style="text-align:justify;"> Eu simplesmente não tenho mais vontade nem de continuar a escrever. É tanta raiva gratuita que fico tonta. Mas vamos lá, preciso compartilhar com vocês pelo menos mais esta demonstração de que a luta e vigilância por tolerância e igualdade na Internet é urgente.</p>
<p style="text-align:justify;">Trata-se de outra barbaridade que li no escrevalolaescreva.blogspot.com. Ler o blog da Lola às vezes me faz perder o sono com a dimensão das loucuras que ela encontra por aí. Lola que, feminista arretada, virou alvo de chacota, <em>trollagens</em> e ameaças dos mascus, está sempre trazendo alguma pérola para nos fazer refletir sobre a importância dessa batalha. Abaixo, um comentário anônimo que deixaram em seu blog, praticamente as 25 Teses Masculinistas, preparem-se (e relevem as inadequações ortográficas):</p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">1- expulsar todas femeas da policia e forças armadas.</p>
<p style="text-align:justify;">2- não permitir femea fazendo segurança a não ser em eventos exclusivos para femeas.</p>
<p style="text-align:justify;">3- dar incentivo a empresas contratarem pais de familia.</p>
<p style="text-align:justify;">4- revogar toda permisão de femea dirigir caminhoes e tratores, pilotar aviao, barco, etc.</p>
<p style="text-align:justify;">5- incentivo as mulheres a serem do lar.</p>
<p style="text-align:justify;">6- baixa renda receberiam bolsa familia apartir de 1 filho e com 2 seria cortado o beneficio pela metade e com 3 seria cortado de vez o beneficio.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>7- revogar os direitos das femeas votarem. </strong></p>
<p style="text-align:justify;">8- banir o divórcio</p>
<p style="text-align:justify;">9- crime para femeas que praticarem o adultério.</p>
<p style="text-align:justify;">10- extinguir a aposentadoria antecipada de 5 anos das <strong>usurpadoras</strong>, ou faze-las contribuir proporcionalmente, pois do jeito que ta os homens est ao financiando essa regalia para elas.</p>
<p style="text-align:justify;">11- eliminar o desconto no seguro-auto das usurpadoras porque este desconto esta sendo financiado pelos homens quando pagam mais pelo mesmo produto (seguro-auto)</p>
<p style="text-align:justify;">12- revisar a lei maria da penha e todas as leis sexistas</p>
<p style="text-align:justify;">13- se elas tem direito de abortar um filho nosso a revelia &#8211; tambem queremos o direito de desistirmos da paternidade (aborto masculino)</p>
<p style="text-align:justify;">14- extinguir a pensao alimenticia</p>
<p style="text-align:justify;">15- aprovar o extatuto do homem que tramita na camara federal imediatamente</p>
<p style="text-align:justify;">16- exti nguir as turmas mixtas nas escolas publicas assim como EUA, China e mais de 30 paises estao comprovando serem melhor para ambos os sexos.</p>
<p style="text-align:justify;">17- iniciar a comercializacao da pilula anticoncepcional masculina imediatamente (gossypol 20mg)</p>
<p style="text-align:justify;">18- greve de casamento / namoro e assemelhados.</p>
<p style="text-align:justify;">19- Criminalisar as Maes Solteiras (como na China)</p>
<p style="text-align:justify;">20- criacao de cotas masculinistas nos jornais, cinema, TV, etc</p>
<p style="text-align:justify;">21- Banir a palavra TPM (fraude) dos jornais e TV</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>22- Tornar MASCULINISMO como materia escolar obrigatoria imediatamente </strong></p>
<p style="text-align:justify;">23- Cota minima para os professores 50% no ensino fundamental, pre-escolar e medio</p>
<p style="text-align:justify;">24- A viuva recente estara automaticamente subordinada ao filho mais velho, na ausencia deste ao irmao mais velho, ou primo, ou tio, ou sobrinho, etc</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>25- Criminalisar as femeas usuarias de novelas, shows de calouros, programas voltados ao publico femeo/gay (90% da programacao).</strong></p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">Vou ao delírio com as teses 7, 22 e 25 (<em>Hors <em>concours</em></em><em>!), sem falar de termos amáveis como usurpadoras, e desse “fêmea”, bem animalesco também. Agora passo a bola pra vocês: tudo isso é uma grande ilusão de ótica minha, piração coletiva minha e deles, gente precisando de sérios tratamentos psiquiátricos, a volta(?) do fascismo com requinte cibernético ou realmente um grave e ainda não classificado fenômeno social? Receio já saber a resposta. Mas a ferida está aberta, a serpente está na terra. Vamos examiná-la. Como já foi dito na Cordilheira antes “</em>Sufocar preconceitos não é tão eficaz quanto trazê-los à luz, disseca-los, revirar-lhes sentido e lógica e deixá-los pra esturricar sob o sol. Quanto mais luz, menos equívocos.” (Taiguara Almeida).<em></em></p>
<p style="text-align:justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align:justify;"><em><strong>Saiba mais: </strong></em></p>
<p style="text-align:justify;">BOLTANSKI, Luc. [e] CHIAPELLO, Éve. O novo espírito do capitalismo. São Paulo, Martins Fontes, 2009.</p>
<p style="text-align:justify;">MAYNARD, Dilton Cândido Santos. Escritos sobre história e internet. Rio de Janeiro: FAPITEC/MULTIFOCO, 2011.</p>
<p style="text-align:justify;">MAYNARD, Dilton Cândido Santos. Intolerância em rede: apropriações da Internet pela extrema-direita (1999-2009). Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 5, Nº10, Rio, 2010 [ISSN 1981-3384]  Disponível aqui: <a href="http://tempo.tempopresente.org/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=5285%3Aintolerancia-em-rede-apropriacoes-da-internet-pela-extrema-direita&amp;catid=222&amp;lang=en">http://tempo.tempopresente.org/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=5285%3Aintolerancia-em-rede-apropriacoes-da-internet-pela-extrema-direita&amp;catid=222&amp;lang=en</a></p>
<p style="text-align:justify;">Sobre a Operação Intolerância: <a href="http://www.dpf.gov.br/agencia/noticias/2012/marco/operacao-intolerancia-prende-responsaveis-pelo-blog-silvio-koerich201d">http://www.dpf.gov.br/agencia/noticias/2012/marco/operacao-intolerancia-prende-responsaveis-pelo-blog-silvio-koerich201d</a></p>
<p style="text-align:justify;">Blog da Lola: <a href="http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/">http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br</a></p>
<p style="text-align:justify;">Blogueiras Feministas: <a href="http://blogueirasfeministas.com/">http://blogueirasfeministas.com/</a></p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;"><strong>Indigne-se mais:</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Postagem comentada do blog da Família Bolsonaro <a href="http://familiabolsonaro.blogspot.com.br/2011/03/parabens-forcas-armadas-pelo.html">http://familiabolsonaro.blogspot.com.br/2011/03/parabens-forcas-armadas-pelo.html</a></p>
<div>
<p style="text-align:right;">.</p>
</div>
<p style="text-align:right;"><em>Anita Lucchesi é estudante de História e curiosa da Internet </em></p>
<p style="text-align:right;"><em>E-mail: anita.lucchesi@gmail.com</em></p>
<br />  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=335&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Sobre Conceição Evaristo</title>
		<link>http://revistacordilheira.com/2012/03/13/sobre-conceicao-evaristo/</link>
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		<pubDate>Tue, 13 Mar 2012 05:10:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Cordilheira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte e Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades e outras velharias]]></category>
		<category><![CDATA[Carolina Maria de Jesus]]></category>
		<category><![CDATA[Conceição Evaristo]]></category>
		<category><![CDATA[Kitabu]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[literatura engajada]]></category>
		<category><![CDATA[literatura negra]]></category>
		<category><![CDATA[Ponciá Vicêncio]]></category>

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		<description><![CDATA[por Bárbara Araújo Machado . &#8220;O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos A memória bravia lança o leme: Recordar é preciso. O movimento vaivém nas águas-lembranças Dos meus marejados olhos transborda-me a vida, Salgando-me o rosto e o gosto. Sou eternamente náufraga, Mas os fundos oceanos não me amedrontam nem me imobilizam. Uma paixão&#160;&#8230; <a href="http://revistacordilheira.com/2012/03/13/sobre-conceicao-evaristo/">Ler&#160;mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=322&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>por Bárbara Araújo Machado</em></p>
<p style="text-align:right;">.</p>
<p style="text-align:left;"><em>&#8220;O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos</em><br />
<em>A memória bravia lança o leme:</em><br />
<em>Recordar é preciso.</em><br />
<em>O movimento vaivém nas águas-lembranças</em><br />
<em>Dos meus marejados olhos transborda-me a vida,</em><br />
<em>Salgando-me o rosto e o gosto.</em><br />
<em>Sou eternamente náufraga,</em><br />
<em>Mas os fundos oceanos não me amedrontam nem me imobilizam.</em><br />
<em>Uma paixão profunda é a bóia que me emerge.</em><br />
<em>Sei que o mistério subsiste além das águas.</em>&#8220;</p>
<p style="text-align:right;">(Recordar é preciso – Conceição Evaristo)</p>
<p style="text-align:justify;">É estranho escrever sobre Conceição Evaristo. Digo isso apesar de vir escrevendo sobre ela há mais de dois anos, desde que tomei sua obra – e, por que não, sua vida – como objeto de estudo do meu trabalho de conclusão do curso de História na UFF e do mestrado que começo esse ano no mesmo bat-curso, na mesma bat-universidade. É estranho porque tenho pilhas e pilhas de páginas escritas em academiquês sobre uma mulher cuja produção literária, em poema, romance ou conto, é sempre poesia. Então peço licença pra tentar escrever sobre Conceição pela primeira vez com um pouco mais de liberdade e, se possível, um certo tom literário que tantas vezes eu acabo tendo de lacerar nos trabalhos acadêmicos.</p>
<p style="text-align:justify;">A essa altura você deve estar digitando “Conceição Evaristo” na pesquisa do Google, se perguntando quem é essa mulher e porque diabos nunca ouviu falar dela. Respondo, então, embora não desaconselhe a busca: Conceição Evaristo é uma escritora negra, nascida em 1946 em uma favela de Belo Horizonte. Mudou-se para o Rio de Janeiro no início da década de 70, onde encontrou um movimento negro efervescente, vindo a se tornar importante militante política e artística, dois aspectos indissociáveis em sua vida e obra. Conceição é autora de dois romances (Ponciá Vicêncio e Becos da Memória, ambos editados pela Mazza), vários contos e poemas, alguns reunidos na coletânea Poemas de recordação e outros movimentos, lançado pela Nandyala em 2008 (é difícil achar esses livros numa Saraiva da vida, mas há boas chances de encontrá-los na Kitabu, auto-intitulada “livraria negra”, que fica na rua Joaquim Silva, na Lapa). Além de tudo isso, é mestre em Literatura pela PUC-RJ e doutora em Literatura Comparada pela UFF. Ufa!</p>
<p style="text-align:justify;">Agora chegamos à parte do porque diabos você nunca ouviu falar dela. Isso tem bastante a ver com o fato de que, na minha escolha de palavras na apresentação ali em cima, o “escritora” veio sucedido pela palavra “negra”. Existe uma coisa chamada “literatura negra” que se remexe dentro do campo da canônica “literatura brasileira”, querendo tirar-lhe o sossego ao questionar incessantemente a tão professada “democracia racial brasileira”. Pra que falarmos em “literatura negra” se o Brasil é o país da harmonia racial, se somos essa alegre mistura, se aqui não existe preconceito de cor? Pois é. Os artistas que reivindicam a literatura negra, assim, com esse sobrenome, querem deixar marcado que a verdade é toda outra, que há vozes subalternizadas, caladas pelo cânone. Como disse Conceição, “quem dita o cânone com certeza não é o pobre, não é o negro, não é o índio, não é a mulher”, e é nesse sentido que a sua obra vem, para fazer emergir vozes dissonantes, discordantes, populares. É por isso que você dificilmente conhece Conceição Evaristo e provavelmente perderia uma brincadeira na qual eu te desafiasse a citar cinco escritores negros brasileiros. Porque literatura contra-hegemônica não se ensina na escola (com raras e gratas exceções). Felizmente, como disse o escritor e pesquisador da literatura negra Cuti (outro que vale a pena dar uma googlada), literatura também pode ser “poder, poder de convencimento, de alimentar o imaginário, fonte inspiradora do pensamento e da ação”. Assim, a literatura negra não pretende apenas apresentar vozes silenciadas, mas despertar novas vozes, incitar novas ações contra a hegemonia branca encarnada no discurso da democracia racial.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas ainda há mais. Há mais porque estamos falando de literatura, uma literatura altamente poética mesmo quando em prosa, como é a de Conceição Evaristo. Eu me deparei com ela quando conheci Carolina Maria de Jesus (outra escritora negra e favelada, essa mais célebre, que também vale muito a pesquisa). E conheci Carolina através da favela, a de Acari, na qual houve um recital em homenagem à obra dessa escritora. Eu precisava de um tema de monografia e a obra de Conceição veio como um presente por encarnar tudo que eu sempre achei importante estudar, debater. Mas o presente foi mais que isso. Eu ia lendo os textos de Conceição e me encantando profundamente. Mais do que militância, discurso, disputa, a literatura que ela produz é&#8230; linda. Difícil precisar melhor que com essa palavra. O poema que escolhi para abrir o esse texto é uma sucinta apresentação da literatura de Conceição.  Ela consegue falar da diáspora africana, da importância política da memória, da experiência subjetiva diaspórica e da necessidade de movimentar-se com uma beleza profunda, uma linguagem poética muito bem trabalhada e ao mesmo tempo simples, apreensível, inevitavelmente emocionante aos que tem dentro da caixa torácica um coração.</p>
<p style="text-align:justify;">Talvez a palavra-chave para entender a obra de Conceição Evaristo seja “memória”. Não uma memória estática, um lugar preso no passado, mas vestígios de uma memória ancestral que a autora trata como retalhos, os quais ela tece nos seus próprios moldes, com objetivos específicos, a partir do presente, mirando para o futuro. Nos poemas e contos, mas principalmente nos romances, é flagrante a importância da memória oral familiar, e é interessante perceber o quanto suas personagens femininas negras confundem-se entre si e com a própria autora, suas memórias pessoais e sua perspectiva de vida. No entanto, essa operação, que pode parecer lúdica e inconsciente, tem a ver com uma estratégia política muito bem definida, que quer explicitar não apenas a riqueza e a diversidade de uma cultura ancestral negra, mas também uma memória da dor. A experiência brutal da escravidão e a persistência de péssimas condições de vida da população negra no pós-abolição são os objetos preferenciais da autora, retratados sempre com uma profunda e precisa beleza poética. E esse retrato tem objetivo claro: Conceição não retoma apenas raízes, mas também busca rotas. No desfecho do romance Ponciá Vicêncio, fica explícito na narrativa o motivo pelo qual a memória do sofrimento deva ser revelada, escancarada: “enquanto o sofrimento estivesse vivo na memória de todos, quem sabe não procurariam, nem que fosse pela força do desejo, a criação de um outro destino” (Ponciá Vicêncio, p. 126).</p>
<p style="text-align:justify;">Há muito mais que se dizer sobre Conceição, sobre o significado de sua vida e obra, e tanto mais a saber sobre outros escritores da causa negra e feminista que comumente se desconhece, se ignora. Fica o convite para que leiam mais, que busquem, principalmente porque uma das grandes propostas – e talvez o maior desafio – da literatura que se reivindica negra é a sua difusão, para ajudar no despertar de consciências e no desabrochar de ação política. E me abre um sorriso que a poesia, em verso ou prosa, seja combustível pra isso. Salve, Conceição Evaristo! Salve à literatura que quer mudança social.</p>
<p style="text-align:justify;">
<p>Para saber mais:</p>
<p>“O Bildungsroman afro-brasileiro de Conceição Evaristo”, por Eduardo de Assis Duarte:<br />
<a href="http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2006000100017&amp;script=sci_arttext"> http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2006000100017&amp;script=sci_arttext</a></p>
<p>“Conceição Evaristo: literatura e consciência negra”, texto meu no portal Blogueiras Feministas:<br />
<a href="http://blogueirasfeministas.com/2011/11/conceicao-evaristo/"> http://blogueirasfeministas.com/2011/11/conceicao-evaristo/</a></p>
<p>Grupo Quilombhoje:<br />
<a href="http://www.quilombhoje.com.br/"> http://www.quilombhoje.com.br/</a></p>
<p>Livraria Kitabu:<br />
<a href="http://kitabulivraria.wordpress.com/"> http://kitabulivraria.wordpress.com/</a></p>
<p style="text-align:right;">.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Bárbara Araújo Machado faz mestrado em História na UFF. É feminista, anticapitalista, capoeirista, flamenguista e poeta sazonal.</em></p>
<p style="text-align:right;"><em>Blog: http://www.oubarbarie.wordpress.com</em></p>
<br />  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=322&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A ciência do particular em Nan Goldin</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Mar 2012 01:14:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Cordilheira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte e Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades e outras velharias]]></category>
		<category><![CDATA[Almodóvar]]></category>
		<category><![CDATA[ciência e arte]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[mam]]></category>
		<category><![CDATA[nan goldin]]></category>

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		<description><![CDATA[por Taís Bravo . Para que existe a ciência se não para ordenar a realidade e assim melhorar a qualidade de nossas vidas? Mas o que move o homem à ciência, um tal desejo de saber, vai muito além de missões iluministas. Almodóvar em seu &#8220;A Pele que Habito&#8221; escancara sem modos a dose de&#160;&#8230; <a href="http://revistacordilheira.com/2012/03/08/a-ciencia-do-particular-em-nan-goldin/">Ler&#160;mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=315&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>por Taís Bravo</em></p>
<p style="text-align:right;"><em>.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Para que existe a ciência se não para ordenar a realidade e assim melhorar a qualidade de nossas vidas? Mas o que move o homem à ciência, um tal desejo de saber, vai muito além de missões iluministas. Almodóvar em seu &#8220;A Pele que Habito&#8221; escancara sem modos a dose de obsessão impregnada nesta prática. Desejo e obsessão rodeiam o homem desde seu inútil e ainda encoberto início. A ciência e suas tecnologias podem disfarçar com seus impulsos civilizatórios e descobertas de cura para a humanidade, mas sem aberrações não se fazem &#8220;avanços&#8221;. O desejo científico se traduz na ação obcecada de analisar, catalogar, desvendar e agora também transmutar a realidade. Assim, a utilidade científica é apenas a consequência, o motor é o susto primordial diante de nossa estranha condição humana. Desembuchando, lanço minha teoria: e se alguns artistas fizessem uma ciência do particular; observando, analisando e catalogando elas mesmas e as pessoas que compõem sua realidade de modo tão investigativo e obcecado quanto daqueles que estudam fungos? Uma ciência completamente inútil devotada a objetos únicos - seres humanos. Estudar uma pessoa, documentar uma vida, particularidade máxima, histórias não se repetem e portanto terminadas as teorias e conclusões não há onde se aplicar; afinal, se você ainda acredita na eficácia nos conselhos, me desculpe estragar o barato&#8230; Ciência e arte que tanto se repelem encontram-se aí no mesmo desespero e empenho obsessivo em criar possíveis ordens para a realidade incessante.</p>
<p style="text-align:justify;">Nan Goldin é PhD sobre sua vida e sobre seus amigos. Um legendado inútil, não fosse incrivelmente belo &#8211; taí um esboço de utilidade que não serve pra nada da arte nos comunicamos entre o que não se diz e é emocionante. Nan é mestre dessa ação arriscadíssima de lançar-se ao sempre improvável do outro. Destemida, ela investiga, fotografa, até ver, até conseguir, não o catálogo entediado e já exausto do amigo que repete as mesmas histórias e escolhas terríveis, mas o deslumbre de conhecer cada ação e ainda não ter acesso a nada (assim como físicos que estudam a galáxia feito a mais bela das namoradas e só chegam a fórmulas estonteantes &#8211; e desesperadoras para alunos do ensino médio &#8211; e nunca a sua essência). Nan permanece curiosa e obcecada por seus pequenos objetos de documentação, por isso seus relatos são preciosos, eles não nos dão retratos redondos de pessoas sem pontas, mas a suspeita de que é possível ir além. As fotos de Nan Goldin nunca nos dizem tudo, elas perturbam, provocam mais perguntas do que respostas.</p>
<p style="text-align:justify;">No entanto, a curiosidade de Nan não é voyeurística. Ao contrário de Diane Arbus que fotograva freaks com o olhar de quem está à parte (quase como um interesse antropológico), Nan está envolvida com o que fotografa, ela faz parte dos freaks. Assim, a câmera não é um meio de expiar, mas de narrar. Estabelecer essa relação Arbus e Goldin faz pouco sentido, contudo, é uma boa oposição para entender as diferentes posturas que essas mulheres tomaram diante de suas câmeras (e vidas). A fotografia para Nan Goldin não era um meio para adentrar em realidades diferentes da sua, mas de conhecer a sua própria realidade. Há um documentário sobre seu trabalho chamado “I’ll be your mirror”, o título é genial, pois é esse o papel de sua câmera: espelho através do qual Nan enxerga sua vida.</p>
<p style="text-align:justify;">“There is a popular notion that the photographer is by nature a voyeur, the last one inveted to the party. But I’m not crashing; this is my party. This is my family, my history”.</p>
<p style="text-align:justify;">É através da fotografia que Nan Goldin consegue reter a vida e transformar o que é incessante fluir em imagens estáticas e físicas (num sentido de se ver a imagem ser revelada, diferente do instantâneo das câmeras digitais). As fotos são, portanto, consequência de uma necessidade emocional, elas recortam a realidade e tornam-na passível de uma narrativa. A câmera é um meio de controlar a existência que lhe escapa, esse exercício intenso de documentação do que a rodeia é um desejo de ordenar e também de conhecer. Alguns aspectos da vida de Nan Goldin favorecem essa necessidade emocional que define seu trabalho; o suicídio da irmã de 18 anos, o uso intenso de drogas que intensifica a sensação de perda de controle, os amigos morrendo aos poucos de AIDS e os relacionamentos amorosos problemáticos. Mas, honestamente, basta estar vivo para saber que não existe controle desde do parto até a morte, alguns esquecem do risco, outros lidam com essa impotência estudando engenharia genética, Nan Goldin disparou obcecada sua câmera.</p>
<p style="text-align:right;">.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Taís Bravo é estudante de Filosofia na UFF.</em></p>
<p style="text-align:right;"><em></em><em>Blog:www.dicionariodegestoseanseios.wordpress.com/ Email: <a href="mailto:taisbravo@gmail.com">taisbravo@gmail.com</a></em></p>
<br />  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=315&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Canções de Apartamento: os anseios do indivíduo contemporâneo e o papel do artista musical</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Mar 2012 02:04:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Cordilheira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte e Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Canções de apartamento]]></category>
		<category><![CDATA[Cícero Lins]]></category>

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		<description><![CDATA[por Jonatan Agra . Numa época em que a agilidade do mundo nos fascina, sufoca e, ao mesmo tempo, nos dá mais espaço como indivíduos do que nunca antes tivemos, o artista contemporâneo se desponta como essencial voz representativa de nossas questões, desejos de fuga, reflexões, tristezas. No Ocidente, caminhamos inexoravelmente para uma padronização no&#160;&#8230; <a href="http://revistacordilheira.com/2012/02/29/cancoes-de-apartamento-os-anseios-do-individuo-contemporaneo-e-o-papel-do-artista-musical/">Ler&#160;mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=304&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;" align="center"><em>por Jonatan Agra</em></p>
<p style="text-align:right;" align="center">.</p>
<p style="text-align:justify;" align="center">Numa época em que a agilidade do mundo nos fascina, sufoca e, ao mesmo tempo, nos dá mais espaço como indivíduos do que nunca antes tivemos, o artista contemporâneo se desponta como essencial voz representativa de nossas questões, desejos de fuga, reflexões, tristezas. No Ocidente, caminhamos inexoravelmente para uma padronização no que tange aos modos de vida e convivência. A psicologia social já nos adianta: vivemos tempos em que o Indivíduo reina soberano.</p>
<p style="text-align:justify;">Tempos {pós-} modernos. Na imensidão dos fluxos que se formam nas grandes metrópoles, a Internet acaba por ser a entidade catalisadora das inclinações de consumo cultural. E consumo não apenas no sentido capitalista do ato, mas no próprio contato do público com as criações desse novo artista contemporâneo, que está em todo lugar (em nosso computador, nossos iPhones, mp4’s, nossas cabeças) e em lugar nenhum (quando vamos aos seus shows?).  Segundo Claire Bishop<a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn1">[1]</a>, cada vez mais a arte perde seu caráter de produção solitária para ganhar um genuíno e contemporâneo sentido dialógico: e o artista é, irreversivelmente, despejado de seu ateliê<a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn2">[2]</a>.</p>
<p style="text-align:justify;">Nesse contexto, padrões de hábitos musicais se desenham à atual juventude ocidental e, especificamente, brasileira de classe média. No final da primeira década deste ainda estranho século XXI em que enquadramos nossas vidas, nossos gostos, em perfis virtuais, uma janela de nossa vida sempre aberta para o mundo, significações e afetividades públicas, um curioso paradoxo desfaz nossas certezas como um nó cego: o que críamos ser a era da individualidade, passa de um momento a outro a era dos <em>padrões</em> de individualidade. Enquanto atribuímos uma individualidade inquestionável a nós mesmos (a <span style="text-decoration:underline;">originalidade</span>), o que acaba por se tornar nosso único trunfo em meio à tanto anonimato metropolitano, padrões se deflagram no seio da Sociedade: modos de vestir, gostos musicais, jeitos de manipular fotografias e, sobretudo,  jeito de morar.</p>
<p style="text-align:justify;">Apartamentos. Caixas de concreto em que pequenos mundos se desenrolam uns ao lado dos outros, uns em cima e abaixo dos outros. A própria rotina de viver em um apartamento implica numa série de ações e não-ações que esboçam a tal da individualidade contemporânea, diga-se melhor, da solidão contemporânea. Para os sortudos, uma varanda ou janela com um pedaço de verde, ou um pedaço de céu. Para os mais desafortunados, nem isso. E resta recorrer ao que está dentro, à pele fria das paredes brancas, às nossas reflexões, à internet.</p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://revistacordilheira.files.wordpress.com/2012/02/dsc001661.jpg"><img class="aligncenter  wp-image-309" title="DSC00166" src="http://revistacordilheira.files.wordpress.com/2012/02/dsc001661.jpg?w=717&#038;h=471" alt="" width="717" height="471" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Em “Canções de Apartamento”, o carioca Cícero Lins nos rabisca em traços soltos, porém bem delineados, impressões de sentimentos e desejos de escapismo da realidade de se viver em tal contexto. Construindo suas melodias e letras com significativa influência de contemporâneos ou não (Caetano, Mutantes, Tom Jobim, Beatles&#8230;), Cícero atinge um público bastante específico da juventude nacional: um público majoritariamente universitário<a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn3">[3]</a>, amante de MPB e rock, eventualmente também artista. De igual maneira, um público essencialmente urbano, Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, Curitiba, quando muito distante, Recife ou Salvador.</p>
<p style="text-align:justify;">É óbvio que quem está fora das grandes cidades pode ter acesso à internet e baixar o Canções, essa opção existe. Mas nossa questão consiste em deflagrar justamente a especificidade do sensível compartilhado nas dez canções que compõem o álbum, com quem está sendo ator da própria vida, e apenas mais um em uma legião de coadjuvantes nas grandes cidades, que acordam e ligam o computador antes de tomar café, que estão sendo levados pelos fluxos e refluxos da vida metropolitana, razão pela qual as melodias e letras de Cícero geram uma identificação tão específica com o jovem urbano, fechado em si e transpassado pelo mundo.</p>
<p style="text-align:justify;">Já esboçamos superficialmente o apartamento como local em que quase tudo tende à solidão contemporânea. Contudo, vamos além: o cotidiano num apartamento de uma grande cidade pode ser visto como micro-cosmo da própria experiência de viver numa grande cidade. As relações que se estabelecem com o espaço, tanto físico quanto simbólico, são extremamente determinadas pelas paredes e medidas geométricas que nos enclausuram nessas pequenas ilhas de modernidade e significações pessoais (afinal, é a nossa casa). Contudo, para além das relações espaciais, as emoções e relações afetivas acabam também por serem afetadas pelo individualismo proveniente deste estilo de vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Viver em um prédio de uma grande metrópole latino-americana (não arrisquemos “ocidental”, já que passamos por processos de urbanização e políticas públicas tão distintas) implica, quase em todos os casos, em ausências: de cor, de harmonia, de bem-estar visual. Somos invadidos por concreto e cores mortas a maior parte do tempo. Ou então por padrões de cores claras: gelo, bege, areia. Daí se entenderia, em nossa análise, a presença marcante do anseio por cores na obra de Cícero. A poluição (ou simplicidade tosca) visual como problema social primeiro: vemos. Tudo, o tempo inteiro.</p>
<p align="center"><strong><span style="color:#808080;">“Pra começar a colorir algum lugar que seja aqui</span></strong></p>
<p align="center"><strong><span style="color:#808080;">com um balão só já dá pra voar (&#8230;).”<a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn4"><span style="color:#808080;">[4]</span></a></span></strong></p>
<p style="text-align:justify;">De maneira semelhante, as cores associadas à alegria da rua, a estar ao ar livre, e não dentro, não em qualquer época, mas durante o carnaval de rua, em que a ordem e, consequentemente, o espírito da cidade, são postos de ponta à cabeça, e dançar com estranhos ou falar com estranhos ou rir à toa e embriagar-se não geram estranhamento, mas fazem parte de um ritual:</p>
<p align="center"><strong><span style="color:#808080;">“Sambar na via, atravessados, alguém deixou, então tá deixado.</span></strong></p>
<p align="center"><strong><span style="color:#808080;">Não fique aí parado, essa é a lei.</span></strong></p>
<p align="center"><strong><span style="color:#808080;">Vou pintar um lugar mais bonito pra fazer meu festival.</span></strong></p>
<p align="center"><strong><span style="color:#808080;">Quando o carnaval passar, vamos dançar. Qualquer coisa é melhor que tristeza.”<a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn5"><span style="color:#808080;">[5]</span></a></span></strong></p>
<p style="text-align:justify;">No mesmo contorno das cores, percebemos a presença constante da figura do balão. Ora, se pensarmos pela antropologia musical e, com isto, considerarmos a música como a mais cotidiana de todas as artes produzidas, já que a mesma acarreta em si elementos inexistentes, ou menos marcantes, nas outras artes como ritmo, capacidade de nos reportar à momentos, pessoas e emoções do passado a cada nota, cada solo que se desenrola, conseguiremos, desta maneira, dimensionar a importância da música e, consequentemente, do artista musical, na contemporaneidade. “Uma peça ou um filme de igual, ou até melhor, maneira também nos pode transportar e reviver emoções”, alguém diria. Naturalmente. Mas a diferença crucial é que não podemos ir andando e vendo filmes e peças por aí. De igual forma acontece com livros ou poemas. A música desliza por nossas complicações e andanças do dia a dia e fica ali, ao pé do ouvido. Se assim dimensionarmos sua importância, a apologia aos elementos que nos remetem a sentimentos alheios às grandes cidades se torna muito significativa, pois nos recorda a todo o tempo as ausências que acarretam a praticidade da vida metropolitana.</p>
<p style="text-align:justify;">A figura do balão é presente nominalmente, visualmente (na blusa de Cícero, na capa do álbum) e poeticamente. O balão como alegoria da falta de espaço na selva de pedra. Quer seja espaço físico, quer emocional. O balão como uma perspectiva de fuga da loucura nas ruas literal e visualmente estreitas, rodeadas de arranha-céus, saturadas de gente e construções, mas, ao mesmo tempo, como reflexo de nossas incertezas. Nós, que somos levados por aí, segundo os fluxos. Ou segundo as correntes de ar: <span style="color:#808080;"><strong>“<em>Fala pra ele que a vida é um balão. (&#8230;)</em>”.<a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn6"><span style="color:#808080;">[6]</span></a></strong></span> De cima, não se teme mais a cidade do que quando se está como um Baudelaire carioca, sendo carregado pelas massas, vendo-se obrigado a desviar de poças e automóveis por toda a parte.<a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn7">[7]</a></p>
<p style="text-align:justify;">Automóveis, horários, prazos, engarrafamentos. Pressa. Pressa de chegar a tempo, pressa de adiantar coisas que precisam ser feitas para que, depois, façamos mais coisas. A <em>persona</em> contemporânea é invadida todos os dias por cobranças e obrigações que ela mesma cria para si e, concomitantemente, que a sociedade lhe impõe. Um processo duplo no qual não percebemos seu começo e fim, como uma serpente Ouroboros que se açoita.  Nesta perspectiva, Cícero nos retrata a cara de uma bagunça urbana em que a vida é por si só uma distorção bizarra, um hiato. A cidade e seus “vagalumes cegos”, que vagam por aí sem rumo, com caras nubladas.</p>
<p align="center"><strong><span style="color:#808080;">&#8220;Nem sei</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Dessa gente toda</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Dessa pressa tanta</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Desses dias cheios</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Meios-dias gastos</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Elefantes brancos</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Vagalumes cegos</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Meio emperrados</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Entre o meio e o fim</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Meio assim.” <a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn8"><span style="color:#808080;">[8]</span></a></span></strong></p>
<p style="text-align:justify;">            Assim, fica no ouvido a impressão da crítica aos engarrafamentos feios, as pessoas correndo a todo lugar e a lugar nenhum, aos edifícios elefantes brancos que nos agridem (que são muitos). E nos embala a compreensão da vida contemporânea cheia dos seus encontros efêmeros e superficiais, em que as pessoas passam pelas vidas uma das outras e, muitas vezes, nada constroem, não se desarmam. Conhecer e se relacionar com muitas pessoas superficialmente ao invés de construções significativas com poucos. Precisamente aí o eu &#8211; lírico tece seu lamento, sua queixa ao efêmero, à pele morta das emoções prontas, e faz o pedido à pessoa amada:</p>
<p align="center"><strong><span style="color:#808080;">“(&#8230;) E o céu engarrafado&#8230;</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Fica por aqui</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Vem cuidar de mim</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Vamos ver um filme, ter dois filhos</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Ir ao parque</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Discutir Caetano</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> Planejar bobagens</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> E morrer de rir.” <a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn9"><span style="color:#808080;">[9]</span></a></span></strong></p>
<p style="text-align:justify;">Não nos cabe, aqui, pensar se o modo como levamos nossas vidas na contemporaneidade está certo ou errado (se é que há um jeito certo e um errado). Mas algumas situações recorrentes de nosso mundo urbano apresentam-se como afirmativas irreversíveis ao olhar crítico: sofremos, nos sentimos sozinhos, ficamos alegres, ficamos tristes, amamos nossas cidades, odiamos as mesmas cidades, amamos nossas coisas, nossos apartamentos, nos decepcionamos, temos mágoas. E, nesse turbilhão, Cícero empreende suas impressões sobre este mundo recheado de nuances e infinitas possibilidades. A questão não seria achar uma resposta, mas alívios. Companhia. Contrariar o princípio do eu absoluto e contar com alguém de maneira sincera. Afinal,</p>
<p align="center"><span style="color:#808080;"><strong>“Ainda não fazem pessoas que enxuguem</strong></span><br />
<strong><span style="color:#808080;"> suas próprias</span></strong><br />
<strong><span style="color:#808080;"> mágoas.” <a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn10"><span style="color:#808080;">[10]</span></a></span></strong></p>
<p style="text-align:justify;">De acordo com Hans Belting, “o mundo hoje é uma diáspora (&#8230;). Uma diáspora segundo a qual se vive sempre no estrangeiro e se tem de procurar para si uma identidade, pois não se possui uma e também não se adquire uma no cenário artístico global, embora aí se possa, em todo caso, assimilar uma identidade.”<a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn11">[11]</a> Belting pode nos fazer refletir sobre coisas interessantes.</p>
<p style="text-align:justify;">O artista contemporâneo está nu. A sociedade o despiu. O capitalismo o obrigou a ter que viver sem auras, a acordar cedo, ter prazos, pagar contas. A produzir, sim, de maneira sincera e sensível, mas, claramente, também pensando em sua sobrevivência e suprimento material. Seu sustento. Neste contexto, ser músico é, também, ser um profissional. Ainda que desviando dos meios convencionais, de gravadoras e legitimação de casas de espetáculos, o músico contemporâneo sabe que precisa enquadrar suas músicas em padrões mínimos de consumo, no sentido capitalista da ação. Músicas que são críticas, sim. Que abordam questões sociais extremamente pertinentes, sim. Que nos causam identificação e emoção, também sim. E que não passam de 4 minutos de duração cada.  Músicas comerciais, sim, que obedecem a uma dinâmica sistêmica de entretenimento, mas que são necessárias à vida, ao cotidiano. Como seria um mundo em que só houvesse música experimental? Não há uma música boa e outra ruim ou não-música. Há <em>momentos musicais</em>, que se distinguem significativamente, alterando o que desejamos ouvir em cada situação vivida.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao artista musical, portanto, cabe à sensibilidade de saber para qual público se dirige, e cativá-lo da maneira que melhor favoreça a ambos, sensacional e emotivamente aos consumidores culturais e econômica e satisfatoriamente a ele mesmo. Exatamente neste contorno se demarcam, em nossa visão, as linhas imprecisas da identidade assimilada do artista. Ele produz para um público que o segue e, portanto, suporta sensíveis inovações em seus tons e melodias, mas, ao mesmo tempo, que já espera aquelas impressões dele características, sua marca como artista. Sabedor disto, o artista compõe com seu público uma valsa, em que ambos impõem seus passos. Caso um dos dois desande, o casal de desfaz. Ele é porta-voz de questões sociais, de alegrias e angústias de seu público, mas é também um homem comum que divulga o seu trabalho, seus shows, pede para que o público “curta” sua página virtual. O que o classificaria como artista, desta forma, seria justamente a criação de coisas que não existem nesse mundo, mas que o interpretam: suas músicas. Elas dão sentido, apreço às coisas belas, desprezo às feias. Na contemporaneidade, ele precisa dialogar, como indivíduo, com as diversas culturas que compõem nosso múltiplo arquivo cultural. Já que “a apropriação intercultural de objetos formais de culturas alienígenas relembra o indivíduo de sua própria subjetividade.”<a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftn12">[12]</a></p>
<p style="text-align:justify;">É desse prisma de muitas faces que acreditamos ser formado o artista contemporâneo. Assim, cremos que “Canções de Apartamento” se configura como um sensível e preciso exercício musical de alteridade urbana, que nos remete às ausências que nos enchem o peito, aos problemas de espaço e poluição visual, às decepções amorosas e a busca por novos amores, a procura por uma saída dessa pressa tanta, deixar-se levar pela vida como se nela estar correspondesse ao balanço suave de um balão. Mas também nos aclara a maneira pela qual se constroem olhares precisos sobre a vida e seus problemas, como a música enquanto arte é modelada pelas impressões de um público desejoso de artistas que os contemplem em seus mais diversos dilemas e expectativas.<em> </em></p>
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<hr align="left" size="1" width="33%" />
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<p><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref1">[1]</a> BISHOP, Claire. <strong>A Virada Social: colaboração e seus desgostos. </strong>Tradução: Jason Campelo. Revisão técnica: Gisele Ribeiro.</p>
</div>
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<p><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref2">[2]</a> OLIVEIRA, Luiz Sérgio. <strong>O Despejo do Artista.</strong></p>
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<p><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref3">[3]</a> De 50 perfis pessoais, clicados aleatoriamente, que comentam e curtem Canções de Apartamento na rede social virtual Facebook, 32 estão cursando o ensino superior e 18 não.</p>
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<p><strong><span style="color:#808080;"><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref4"><span style="color:#808080;">[4]</span></a> “Cecília e os Balões”, Cícero Lins, Canções de Apartamento.</span></strong></p>
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<p><strong><span style="color:#808080;"><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref5"><span style="color:#808080;">[5]</span></a> “Laiá Laiá”, Cícero Lins, Canções de Apartamento.</span></strong></p>
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<p><strong><span style="color:#808080;"><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref6"><span style="color:#808080;">[6]</span></a> “Pelo Interfone”, id., Canções de Apartamento.</span></strong></p>
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<p><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref7">[7]</a> BERMAN, Marshall.<strong> Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade</strong>. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.</p>
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<p><strong><span style="color:#808080;"><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref8"><span style="color:#808080;">[8]</span></a> “Vagalumes Cegos”, Cícero Lins, Canções de Apartamento.</span></strong></p>
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<p><strong><span style="color:#808080;"><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref9"><span style="color:#808080;">[9]</span></a>  “Vagalumes Cegos”, Cícero Lins, Canções de Apartamento.</span></strong></p>
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<p><strong><span style="color:#808080;"><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref10"><span style="color:#808080;">[10]</span></a> “João e o Pé de Feijão”, Cícero Lins, Canções de Apartamento.</span></strong></p>
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<p><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref11">[11]</a> BELTING, Hans. “<em>Arte Universal e Minorias: uma nova geografia da História da Arte</em>”.</p>
<p>In: __________. <strong>O Fim da História da Arte</strong>. São Paulo: Cosac Naify, 2006, p. 104.</p>
</div>
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<p><a title="" href="/Users/Ta%C3%ADs/Downloads/C%C3%ADcero,%20texto%20pra%20Corilheira.docx#_ftnref12">[12]</a>  PIPER, Adrian. “<em>A Lógica do Modernismo</em>” in: <strong>FlashArt 26</strong>, n° 168, Tradução de Cláudio Miklos. Revisão técnica de Luiz Sérgio de Oliveira, 1992, p. 170.</p>
<div style="text-align:right;">.</div>
<div style="text-align:right;"></div>
<div style="text-align:right;"><em>Jonatan Agra é estudante de História e poeta nas horas vagas. Ou vice-versa.</em></div>
<div style="text-align:right;"><em>Email: jonatan_agra@hotmail.com</em></div>
<div style="text-align:right;"></div>
<div style="text-align:right;">.</div>
<div style="text-align:right;"></div>
<div style="text-align:right;"><em>O álbum Canções de Apartamento está disponível para download no site:<a href="http://www.cicero.net.br/">http://www.cicero.net.br/</a>  </em></div>
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<br />  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=304&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title>A imperativa literatura de Cortázar</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Feb 2012 13:50:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Cordilheira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte e Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[cortázar]]></category>
		<category><![CDATA[desassossego]]></category>
		<category><![CDATA[julio cortázar]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[por Taís Bravo . Não se lê Cortázar impunemente. A leitura de seus textos (que podem ser poesias, contos, teorias críticas, fábulas e nada disso, porque tudo isso são rótulos que são muito pouco) demanda uma adesão que provoca uma experiência transformadora. “Muito do que escrevi se qualifica sob o signo da excentricidade, porque nunca&#160;&#8230; <a href="http://revistacordilheira.com/2012/02/03/a-imperativa-literatura-de-cortazar/">Ler&#160;mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=297&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>por Taís Bravo</em></p>
<p style="text-align:right;">.</p>
<p style="text-align:justify;">Não se lê Cortázar impunemente. A leitura de seus textos (que podem ser poesias, contos, teorias críticas, fábulas e nada disso, porque tudo isso são rótulos que são muito pouco) demanda uma adesão que provoca uma experiência transformadora.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>“Muito do que escrevi se qualifica sob o signo da excentricidade, porque nunca admiti uma clara diferença entre viver e escrever; se ao viver consigo disfarçar minhas circunstâncias, não posso porém negá-la no que escrevo porque escrevo precisamente por não estar ou por só estar pela metade. Escrevo por incapacidade, por sempre deslocação; e como escrevo num interstício, estou sempre propondo que os outros procurem os seus e por eles olhem o jardim onde as árvores têm frutos que são, naturalmente, pedras preciosas. O monstrinho continua firme.”</em></p>
<p style="text-align:justify;">Critérios para julgar a arte são sempre uma bola fora. O próprio Cortázar vai dizer em uma carta que entender algo é deixar de vê-lo. Assim, fixar a experiência artística – sempre singular &#8211; num amontoado de conceitos frios e <em>explicativos</em> será uma eterna tentativa falida. Se há algum critério que pode ser lançado dentro desta falha já declarada alguma perspectiva interessante diante dessa ação humana que é sempre estranha é o que mede a arte pela transformação que esta provoca. Em outras palavras, a experiência artística <em>real </em>(e podem gargalhar com a ousadia de ainda usar esta palavra) é aquela que exige de quem a vive uma mudança de vida. Não me interessa muito desenvolver um elogio a este critério ou expor seu grau de veracidade, mas apenas o utilizar como o melhor critério para abordar essa literatura que se desmancha e transborda e não cabe nos caducos critérios da seríssima Teoria Literária. Se pretendo falar de Cortázar é pela faísca que sua obra nos causa e, então, pouco importa uma crítica que se vale de sobriedade e distância, por aqui é pura empatia e contágio (o que ratifica minha tese, só para apontar que também há lógica) .</p>
<p style="text-align:justify;">O que Cortázar propõe torna-se um imperativo quando entra pelos olhos, percorre estruturas internas e se fixa no estômago, nos poros e em todas as estranhas partes que são o corpo. E assim se abre como uma janela exigente: A vida como antes se constituía amolece, mais grave, tudo adere. O que se passa é a impossibilidade de algo ser banal – acordar, comprar o pão, atravessar a rua, tudo transborda um imenso risco. A influência que essa literatura tem é decisiva, pois modifica a cotidianidade, aquilo que é humano e passa longe do sublime. Assim, o que se altera é a percepção da existência – e não de uma simples sensibilidade momentânea concentrada no momento de leitura ou de contato com a arte -, tudo se mostra como é. Tudo palpita e há milhões de tons e poeiras e aromas nos contagiando de forma que cada passo exige muita atenção, não para se proteger, mas para ser numa entrega consentida que é um gozo do todo.</p>
<p style="text-align:justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>&#8220;Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina.&#8221;</em></p>
<p style="text-align:justify;">
<div id="attachment_300" class="wp-caption aligncenter" style="width: 217px"><a href="http://revistacordilheira.files.wordpress.com/2012/02/317443_239675392749793_100001220021548_790642_93848733_n.jpg"><img class="size-medium wp-image-300" title="317443_239675392749793_100001220021548_790642_93848733_n" src="http://revistacordilheira.files.wordpress.com/2012/02/317443_239675392749793_100001220021548_790642_93848733_n.jpg?w=207&#038;h=300" alt="" width="207" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Desassossego ou revolução</p></div>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">&#8216;História de Cronópios e de famas&#8217; limpa<em> </em>do<em> </em>hábito<em> </em>nossas tão comuns ações de chorar, cantar, dar corda no relógio&#8230; Descobre estas do nada extraordinário em que as enfiamos na rotina de <em>ser</em> humano. O olhar que Cortázar instiga às coisas e à existência é de uma transformação preciosa, principalmente em tempos em que a rua é mais passagem e vitrine do que espaço de contaminação, horror e encanto. A mudança de vida que Cortázar exige é política. Através da travessia de seus olhos se retira o véu plástico que corrói a matéria e a vida humana. O olhar se alonga e resiste ao narcisismo contemporâneo. Cortázar abre um sol na pele, um gosto de vida e nos faz ver. Essa visão que conhece e não reconhece, mas se espanta e delicia com as coisas, dá à existência uma fertilidade que a todo tempo nos é roubada. O extremo poder político que a obra de Cortázar possui não se dá então em um engajamento que ordena ideologias em versos, mas no modo como seus labirintos ardem às percepções.</p>
<p style="text-align:justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>“Essas crises que a maioria das pessoas considera escandalosas, absurdas, eu pessoalmente tenho a impressão de que servem para mostrar o verdadeiro absurdo, o absurdo de um mundo ordenado e calmo, com um quarto onde diversos caras tomam café às duas da manhã, sem que, realmente nada disso tenho o menor sentido, a não ser um sentido hedonista, o bom de estarmos ao lado deste aquecimento que se prolonga tão gostosamente. Os milagres nunca me parecem absurdos. O absurdo é aquilo que os precede e os que vem depois.”</em></p>
<p style="text-align:justify;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align:justify;">O que Cortázar não sabe lidar e desafia em cada um dos seus textos que recriam a realidade é que esta seja constituída por fatos límpidos, limitados e óbvios. O sujeito, por exemplo, não é de forma alguma compatível com aquele que Kant ditou (e que assim transformou as vias de toda a existência humana, uma dose a mais de angústia para os ombros); existe sim o limite, somos todos recortes, cada um tem um grau e tom diferente de visão. Mas em Cortázar tudo está numa transfusão contínua, a influência é absurda (quase tão insuportável quanto o limite firme de Kant), todos estamos imundos de contato. E aí está a diferença do poeta (e de outros seres muito próximos dos Cronópios): a poesia tem uma questão ontológica. A poesia é um meio de alongar estes limites, é o desejo de ser. O poeta, então, é aquele que não se aguenta em seu ser, que precisa construir em palavras os outros – e em cada verso é uma nova realidade/ser que salta. (Aqui me contenho para não citar uma dúzia de poetas que escreveram sobre esta necessidade, mas cito dois: um óbvio, Fernando Pessoa e Manoel de Barros, além de Bob Dylan que não só escrevia como incorporava Outros).</p>
<p style="text-align:justify;">Há assim uma relação muito importante e forte entre esta particular Visão, a poesia e os limites. E aí podemos escavar como essa poesia é política e modificadora. Quando se ampliam os limites, se compactua mais com outros seres e a visão se estende. É assim que se encontra a realidade pulsante, que se saboreia o outro e toda a vida ganha uma textura imensa, decisiva e até mesmo atordoante. Isso é de uma preciosidade máxima quando a matéria plástica corrói em velocidade pós-fordista a surpresa, o prazer genuíno, a graça de olhar um outro. O infértil mundo que vivemos entre hambúrgueres, vitrines e “comunicação” excessiva cria homens que nas ruas caminham voltados pra dentro com olhos cheios de hábito, o peito em pleno tédio, incapazes de ver, sem interesse pelo outro, vidas submersas em eu (essa fantasia humana que é o deus no sistema capitalista).</p>
<p style="text-align:justify;">A poesia que é impulsionada por este desejo de ser é um exercício de visão. Porque inventar é um modo distinto de ser: ”&#8230;e se fazer de é muito mais que ficar à sombra: é feitorar com isenção de riscos, é gozar da mesma ranhura&#8230; pertencendo eventualmente”<a title="" href="#_ftn1">[1]</a> A poesia do dia-a-dia, banalizada entre batatas-fritas e jogos de amarelinha, transforma a realidade quando estende os limites de cada “eu” e instiga a afirmação do inescapável contágio.</p>
<p style="text-align:justify;">Cortázar nos exige rever o mundo, isto é, lavarmo-nos da apatia, da existência catalogada, ir às ruas com atenção e desenfreio, ver cada homem, se possível ser muitos, amar como quem descobre uma nova América em cada corpo, comer na surpresa de que existe comida, de que existem dentes, intestino, de que existe.  O flerte entre Surrealismo e existencialismo que Cortázar compõe é isto: O fantástico é que existimos, isso nos impõe a surpresas que sempre estamos escolhendo. Cortázar cola esse lembrete em nossos olhos, nos reacorda e vemos que só há vigília (porque só há sonho.).</p>
<hr align="left" size="1" width="33%" />
<div>
<p style="text-align:justify;"><a title="" href="#_ftnref1">[1]</a> LANNACE, Ricardo <em>Retratos em Clarice Lispector</em>, pag. 47 Ed. UFMG, Belo Horizonte, 2009.</p>
<p style="text-align:right;">.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Taís Bravo é estudante de Filosofia na UFF.</em></p>
<p style="text-align:right;"><em></em><em>Blog:www.dicionariodegestoseanseios.wordpress.com/ Email: <a href="mailto:taisbravo@gmail.com">taisbravo@gmail.com</a></em></p>
<p style="text-align:right;">
<p style="text-align:right;">Desassossego ou revolução. <em>Desenho por Patrícia Borde.</em></p>
<p style="text-align:right;"><em>E-mail: patyborde@hotmail.com</em></p>
</div>
<br />  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=297&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Algumas notas sobre a Estética do Clandestino</title>
		<link>http://revistacordilheira.com/2012/01/27/290/</link>
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		<pubDate>Fri, 27 Jan 2012 14:23:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Cordilheira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte e Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Clandestino]]></category>
		<category><![CDATA[Manu Chao]]></category>
		<category><![CDATA[Zyg]]></category>
		<category><![CDATA[zygmunt bauman]]></category>

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		<description><![CDATA[por Rafael Zacca “Hoje em dia estamos todos em movimento”, declarou o sociólogo Zygmunt Bauman em 1998. No mesmo ano era lançado o disco de Manu Chao onde ele cantava o seu modo de estar-no-mundo: “perdido en el siglo”, “destinado a nunca llegar”. O livro de Bauman chama-se Globalização: as consequências humanas, enquanto o disco&#160;&#8230; <a href="http://revistacordilheira.com/2012/01/27/290/">Ler&#160;mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=290&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Rafael Zacca</em></p>
<p style="text-align:justify;">“Hoje em dia estamos todos em movimento”, declarou o sociólogo Zygmunt Bauman em 1998. No mesmo ano era lançado o disco de Manu Chao onde ele cantava o seu modo de estar-no-mundo: “perdido en el siglo”, “destinado a nunca llegar”. O livro de Bauman chama-se <em>Globalização: as consequências humanas</em>, enquanto o disco de Manu Chao se chama <em>Clandestino</em>. Aqui já se adivinha um caminho (e um ponto de vista – ou seja, de que esquina miramos o destino e com quem queremos constituir um clã – agora que o século se inicia e a Raça precisa do melhor que há de si).</p>
<p style="text-align:justify;">Se ouvirmos o disco de Manu Chao e os temas que canta em suas canções, perceberemos sem muito esforço alguns dos temas que o preocupam. Como as populações de migrantes excluídas neste mundo que se diz globalizado e que constitui cada vez mais fronteiras entre os estados (o que fica claro na faixa-título do disco, “Clandestino”, quando são cantadas as nacionalidades dos indesejáveis nos <em>states</em> ou em regiões da Europa – “Peruano, clandestino! Argelino, clandestino! Nigeriano, clandestino! Boliviano, clandestino!” – os fantasmas da cidade que não levam papéis). Há também o tema da Raça que caminha sobre a Terra arrasando-a, em “Por el Suelo”, quando canta “Por el suelo camina lar raza / Mamacita te vamos a matar”. A maconha também é um dos objetos que merecem ser cantados, como podemos ver na música “Clandestino” e sua condição de ilegalidade associada ao destino dos excluídos, ou na música “Welcome to Tijuana”, quando é cantada como um dos três elixires que a cidade mexicana é capaz de oferecer (tequila, sexo e maconha são os tesouros desta cidade que é fronteira entre os Estados Unidos e o México e cresce a cada dia devido aos fluxos migrantes, que crescem conforme avança o século – a caótica cidade de Tijuana tem seus símbolos de decadência glorificados na visão do clandestino, que se alimenta de tudo aquilo que o sistema rejeita ou exclui). Diversos discursos que atravessam as faixas deixam entrever, ainda que caoticamente e sem muito ordenamento, a preocupação com a injusta distribuição de riquezas entre os homens, quando ouvimos cortar duas músicas um trecho de um manifesto zapatista que pede “reforma, liberdade, justiça e lei”, ou em outra canção quando surge o manifesto que diz “nossa luta é pelo respeito a nosso direito de governar e de nos governar, enquanto o mal governo impõe sobre a maioria a lei da minoria (&#8230;); teto, terra, trabalho, pão, saúde, educação, independência, democracia, liberdade; estas foram as nossas demandas na longa noite dos quinhentos anos, estas são as nossas exigências hoje”. Mas o que quero analisar neste pequeno ensaio não se trata somente dos temas levantados pela música de Manu Chao, mas entender como suas formas se relacionam com estes diversos temas. Em poucas palavras, posso começar dizendo que o disco abraça o Clandestino, inaugurando uma Estética do Clandestino, que constitui incorporar em seus aspectos formais a globalização. E não apenas a globalização está inscrita formalmente na canção, como ela está posicionada ao lado daqueles que precisam se mover por trilhas ilegais.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-decoration:underline;">Aprendendo a andar</span></p>
<p style="text-align:justify;">Esta é a história da cisão. Um dia fomos cindidos em classes, outro em gêneros, outro em etnias, e poderíamos continuar, fosse em lugares comuns, fosse em ideias novas. Mas vamos a apenas uma ideia nova. A história do mundo contemporâneo pode ser contada como a história dos homens que aprendem a andar de um jeito e dos homens que aprendem a andar de outro jeito. Diz Bauman:</p>
<p style="text-align:justify;">“Para os habitantes do Primeiro Mundo – o mundo cada vez mais cosmopolita e extraterritorial dos homens de negócio globais, dos controladores globais da cultura e dos acadêmicos globais – as fronteiras dos Estados foram derrubadas, como o foram para as mercadorias, o capital e as finanças. Para os habitantes do Segundo Mundo, os muros constituídos pelos controles de imigração, as leis de residência, a política de ‘ruas limpas’ e ‘tolerância zero’ ficaram mais altos; os fossos que os separam dos locais de desejo e da sonhada redenção ficaram mais profundos, ao passo que todas as pontes, assim que se tenta atravessá-las, revelam-se pontes levadiças. Os primeiros viajam à vontade, divertem-se bastante viajando (particularmente se vão de primeira classe ou em avião particular), são adulados e seduzidos a viajar, sendo sempre recebidos com sorrisos e de braços abertos. Os segundos viajam às escondidas, muitas vezes ilegalmente, às vezes pagando por uma terceira classe superlotada num fedorento navio sem condições de navegar mais do que os outros pagam pelos luxos dourados de uma classe executiva – e ainda por cima são olhados com desaprovação, quando não presos e deportados ao chegar.”</p>
<p style="text-align:justify;">A primeira experiência dá origem àquilo que Bauman chama de turistas. A segunda dá origem aos vagabundos. Guardadas estas distinções, algumas observações sobre as condições de produção do disco <em>Clandestino</em> devem ser feitas antes de prosseguir.</p>
<p style="text-align:justify;">Ainda que o autor empírico – neste caso, Jose-Manuel Thomas Arthur Chao – não importe tanto neste caso para entendermos a estética por ele abraçada, e, neste sentido, não importa se ele o fez pertencendo ao grupo dos turistas ou dos vagabundos, é necessário mencionar que este disco foi produzido enquanto Manu viajava pelo continente americano, conhecendo diversas capitais latino-americanas e campos de refugiados migrantes, convivendo com toda a sorte de gente. Isto dá a seguinte dimensão: num sentido mais amplo, este disco foi produzido a muitas mãos, em contato com a experiência latino-americana da vagamundagem por fatalidade.</p>
<p style="text-align:justify;">E que experiência é esta? Por um lado, é a experiência ambígua de um mundo cada vez mais sem fronteiras e cada vez mais com fronteiras. Nunca existiu um mundo tão aberto e ilimitado, e nunca existiu um mundo com tantos muros e contenções! Por todo lado vemos referências a diversos países, e encontramos pessoas vindas de todos os lugares. Isto levado às últimas consequências se moramos em uma cidade com aeroportos, dois ou três bairros boêmios e alguns pontos turísticos internacionais – e se o nosso país tem um papel fundamental nas bolsas de valores, seja como acionista, seja como fornecedor de mão-de-obra destes acionistas (ou seja, incluo neste grupo praticamente todas as metrópoles <em>all around the globe</em>, até que se prove o contrário – mas neste caso veremos a constituição física destas cidades um tanto diferenciadas, mas sempre num sentido muito importante globalizadas).</p>
<p style="text-align:justify;">A resposta de Manu é a Nova Babel, não onde todos falam uma nova língua mãe, mas onde todos ouvem todas as línguas, não tanto os seus alfabetos, mas mais os seus grunhidos culturais – o disco de Manu Chao é cantado em diversas línguas, passando pelo espanhol, pelo inglês, o português e o francês. As canções não contrastam a tradição e a modernidade (como diversos artistas o fizeram, inclusive no Brasil, como nos anos sessenta a tropicália opunha símbolos do nosso Brasil rural e “arcaico” ao nosso Brasil industrializado e urbano, ou Chico Science já na década de 1990 que tencionou o maracatu e o rock), mas sim diferentes culturas que se chocam em um mundo em rede.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao fundo de diversas faixas podemos ouvir discursos que atravessam as sonoridades dos instrumentos e da voz de Manu. A música dissolve-se entre homens que passam (como ao fundo de “El Viento”), abafa-se durante a narração de um jogo de futebol (no início de “Lagrimas de Oro”), ou completa-se com manifestos zapatistas (ao fim de “Welcome to Tijuana” a música ganha tons de uma marcha que acompanha o manifesto, entrecortado por diversas outras falas entre uma mãe um filho, um homem que tenta mandar em sua mulher que se rebela, uma risada infantil, entre muitos outros). A música sublima-se para além de sua estética, e a Estética do Clandestino não se contenta em ser apenas música (como o modernismo não se contentava em ser apenas arte, ressaltou Fredric Jameson em <em>Virada Cultural</em>).</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-decoration:underline;">Com o coiote não há alfândega</span></p>
<p style="text-align:justify;">Aqueles que ajudam os migrantes a cruzar ilegalmente a fronteira entre o México e os EUA são chamados de coiotes. Num sentido mais amplo, eles apontam o seguinte: se há um mundo ordenado por regras e leis, estas são humanas e, portanto, possuem falhas e brechas, podem ser ignoradas ou modificadas se não estiverem atendendo às demandas daqueles nelas envolvidos – é possível fazer as coisas pela lei ou por outros meios, basta ter os meios necessários para ludibriá-la (não confundir o reconhecimento de algum potencial político vislumbrável na figura do coiote com a Ode ao coiote).</p>
<p style="text-align:justify;">Diversas canções do <em>Clandestino</em> são cantadas em cima de bases comuns: é assim que, por exemplo, “Bongo Bong” e “Je ne t’aime plus”, duas faixas diferentes, entrelaçam-se perfeitamente e, postas em sequencia no disco, fazem parecer que são a mesma música. Assim também acontece com “Mama Call” e “La despedida”, embora não estejam postas sequencialmente, e assim estejam mais facilmente distinguíveis como duas músicas diferentes. O mesmo acontece com “Por el Suelo” e “La vie a”. Não por acaso estas músicas “duplicadas” em certo sentido são cantadas em línguas diferentes. Este é o mundo que se repete a cada esquina e no entanto é tão diferente. É a configuração do mundo grande que é tão idêntico a si mesmo e ainda assim tão estranho e caótico.</p>
<p style="text-align:justify;">E não é só isso. Em seus shows Manu é conhecido por criar novas versões para todas as suas músicas, e de brincar com seus ritmos, harmonias e melodias, por exemplo trocando as bases de duas canções conhecidas de seu repertório, cantando uma no balanço da outra. Este é o coiote que entende que a própria natureza da canção está em modificação frente aos novos órgãos perceptivos que este nosso mundo está nos forçando a desenvolver. O coiote mostra àquele que quer fazer a travessia que o muro não é apenas um muro, apresentando-lhe tudo aquilo que constitui o muro e tudo aquilo que ele não consegue murar.</p>
<p style="text-align:justify;">Em “Welcome to Tijuana”, já se disse, Manu canta os objetos de degredo associados à cidade-fronteira: o sexo, a tequila e a marijuana. Por trás dessa ode se desenha outra glorificação: esta é a capital dos clandestinos, onde o clã se reúne e decide sobre o seu futuro. O que se pede no final da canção, com o manifesto zapatista recitado, ilumina toda a canção e a transforma em duas, opera uma cisão, que no entanto une os pedidos por democracia e a exaltação do degredo.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-decoration:underline;">Anexo: Extratos do manifesto zapatista recitados na canção “Welcome to Tijuana”</span></p>
<p style="text-align:justify;" align="left">“Nuestra lucha es por el respeto a nuestro derecho a gobernar y gobernarnos, y el mal gobierno impone a los más, la ley de los menos;</p>
<p style="text-align:justify;">Nuestra lucha es por la libertad para el pensamiento y el caminar, y el mal gobierno pone cárceles y tumbas;</p>
<p style="text-align:justify;">Nuestra lucha es por la justicia, y el mal gobierno se llena de criminales y asesinos;</p>
<p style="text-align:justify;">Techo, tierra, trabajo, pan, salud, educación, independencia, democracia, libertad: estas fueron nuestras demandas en la larga noche de los 500 años.</p>
<p style="text-align:justify;" align="left">Estas son, hoy, nuestras exigencias.</p>
<p style="text-align:justify;">Hermanos y hermanas de otras razas y otras lenguas, aquel a cuyas manos se acerque este manifiesto, que lo haga pasar a todos los hombres de esos pueblos…”</p>
<p style="text-align:right;"><em>Rafael Zacca é poeta e estudante de História pela UFF.</em></p>
<p style="text-align:right;"><em>E-mail: <a href="mailto:zacca.rafael@gmail.com">zacca.rafael@gmail.com</a>/ Blog: <a href="http://olivrodosgirassois.wordpress.com/" rel="nofollow">http://olivrodosgirassois.wordpress.com/</a></em></p>
<p style="text-align:right;" align="left"><em><br />
</em></p>
<br />  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=290&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Sobre o orgulho hétero</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 04:15:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Cordilheira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Atualidades e outras velharias]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos Apolinário]]></category>
		<category><![CDATA[Kassab]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
		<category><![CDATA[orgulho gay]]></category>
		<category><![CDATA[orgulho hetero]]></category>
		<category><![CDATA[políticas afirmativas]]></category>

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		<description><![CDATA[No mês passado a Câmara de Vereadores de São Paulo aprovou a criação do Dia do Orgulho Heterossexual, projeto de autoria do vereador evangélico Carlos Apolinário (DEM). A decisão, como não poderia deixar de ser, tornou-se alvo de críticas e chacotas e o prefeito Kassab (PSD), favorável em um primeiro momento, voltou atrás e vetou&#160;&#8230; <a href="http://revistacordilheira.com/2012/01/12/sobre-o-orgulho-hetero/">Ler&#160;mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=280&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em><br />
</em></p>
<p style="text-align:justify;">No mês passado a Câmara de Vereadores de São Paulo aprovou a criação do Dia do Orgulho Heterossexual, projeto de autoria do vereador evangélico Carlos Apolinário (DEM). A decisão, como não poderia deixar de ser, tornou-se alvo de críticas e chacotas e o prefeito Kassab (PSD), favorável em um primeiro momento, voltou atrás e vetou o projeto.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas a ideia permanece pairando por aí e podemos ter certeza de que não foi a última vez que vimos um projeto de lei desse tipo. A criação de um dia do Orgulho Hetero agrada a conservadores, homofóbicos e equivocados. Sobre os primeiros, não vale falar. Fedem a moralismo e a deuses punitivos.</p>
<p style="text-align:justify;">Os equivocados, e aqui dou o benefício da dúvida, são os que realmente me incomodam. Esses que parecem ser bem-intencionados, que reconhecem seus preconceitos, mas declaram reconhecer os direitos alheios. Não negam que haja discriminação, mas estão frequentemente inclinados a considerar como exageradas as poucas políticas afirmativas que se apresentam. Os equivocados parecem acreditar mesmo no que dizem. “Direitos são iguais, não deve haver cotas raciais!”, “É bom que também se tenha um dia do homem”, “Se há orgulho gay, porque não posso ter orgulho de ser hétero?”.</p>
<p style="text-align:justify;">O equivocado ignora que não vive em uma sociedade que garanta direitos iguais ou que tenha eliminado as opressões. Ignora que só há sentido e necessidade de medidas afirmativas, espaços de memória e luta porque as opressões ainda são significativas. Nessa questão específica, o equivocado ignora o próprio conceito de orgulho para a comunidade LGBT: o oposto de vergonha. Orgulho aqui significa aceitação da sua própria diferença, uma afirmação positiva e coletiva. O Orgulho Gay é o lema-bandeira contra opressões que têm no envergonhamento uma de suas armas mais recorrentes. Não é um orgulho-vaidade, mas um orgulho-afirmativo. Declara que aquela coletividade não está disposta a se esconder ou ser tratada de forma inferior.</p>
<p style="text-align:justify;">Já o Orgulho Heterossexual não é uma luta por inclusão, não é uma demanda por reconhecimento. Heterossexuais não sofrem preconceito por sua orientação sexual, não são privados de nenhum direito ou morrem por isso. Orgulho Hetero pega mal. É revanchismo, homofobia mal disfarçada, medo de ter a própria identidade posta em risco. Acima de tudo, não é necessário. Políticas afirmativas não tem o intuito de roubar direitos, mas de equiparar grupos historicamente marginalizados.</p>
<p style="text-align:justify;">Um indivíduo tem direito de se orgulhar do que quiser. De ser heterossexual, de ser branco, de ser de direita e até de ser estúpido. Essas, contudo, não são bandeiras a serem estendidas sobre toda a sociedade. Não devem ser encampadas por um Estado democrático.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, no fim das contas, o movimento LGBT talvez deva agradecer ao vereador Carlos Apolinário por ter trazido essa estapafúrdia ideia à tona. Sufocar preconceitos não é tão eficaz quanto trazê-los à luz, disseca-los, revirar-lhes sentido e lógica e deixá-los pra esturricar sob o sol. Quanto mais luz, menos equívocos.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Taiguara Almeida</em></p>
<p style="text-align:right;"><em>email: taiguaraalmeida@gmail.com</em></p>
<br />  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=280&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Editorial 2</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Dec 2011 14:35:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Revista Cordilheira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Editoriais]]></category>

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		<description><![CDATA[Em uma cidade que grita loucuras, é fácil falar sobre a intoxicação que pode ser um choque de ordem. Se indignar com a padronização, espernear em resistência e pedir a valorização da diferença são propostas estabelecidas pela Cordilheira desde os seus primeiros passos. No entanto, por mais bonito e necessário que seja debater ideologias em&#160;&#8230; <a href="http://revistacordilheira.com/2011/12/21/editorial-2/">Ler&#160;mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=271&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Em uma cidade que grita loucuras, é fácil falar sobre a intoxicação que pode ser um choque de ordem. Se indignar com a padronização, espernear em resistência e pedir a valorização da diferença são propostas estabelecidas pela Cordilheira desde os seus primeiros passos.</p>
<p>No entanto, por mais bonito e necessário que seja debater ideologias em mesas de bar, o momento atual requer prática. Movimentação pequena, escondida atrás dos ombros, que revele a insatisfação da maioria tão acostumada à repressão e impulsione a mudança desse estado que se mostra, cada vez mais, insustentável.</p>
<p>Para tal, por menor que seja o nosso movimento, foi acordado dedicar nesta edição da Cordilheira um espaço maior para as atuais críticas sociais que estão ocorrendo; nos pareceu necessário falar sobre a beleza assustadora proposta pelo Choque de Ordem e pela revitalização da Lapa. Se torna impossível não falar sobre os protestos mundiais onde os 99% decidiram que é hora de mudar.</p>
<p>No que diz respeito à mudança, porém, ficou a sensação da Cordilheira estar, na verdade, ficando para trás. Enquanto o mundo se transforma a passos lentos, a mídia continua se apegando a essa estagnação aterrorizada, típica de quem acha que toda revolução é para o pior. Não era certo deixar que a Cordilheira, nascida de uma sede pelo diferente, se tornasse mais uma revista virtual como todas as outras, encaixada em um padrão que já está mais que obsoleto – tanto na imprensa em geral, como na dos tempos de velocidade banda larga.</p>
<p>Resumindo: queremos para este espaço o clima de transformação que contagia as ruas. A Cordilheira deixa de ter edições para se tornar uma revista de publicação livre, onde os conteúdos serão inseridos de maneira periódica. E a ideia é que este trabalho se torne um espaço para todos. Quanto mais assunto, mais variedade, mais colaboração&#8230; melhor.</p>
<p>Que surjam curtas jornalísticos, artigos de revista em verso e poemas em foto. O e-mail é já um velho conhecido. Que sejamos a própria manifestação.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Natasha Ísis.</em></p>
<br />  <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistacordilheira.com&#038;blog=22300369&#038;post=271&#038;subd=revistacordilheira&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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